Jorge de Oliveira: o sacerdote-investigador

Maio 14th, 20109:42 am @ admin

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Considerado, por muitos, como a mais importante personalidade de Alvalade na primeira metade do século 20, o Padre José Jorge de Oliveira assumiu os destinos da paróquia de Nossa Senhora da Conceição da Oliveira, como pároco colado, a 13 de Março de 1908. Nascido na freguesia de Samuel, concelho de Soure, em 1865, acabaria por se fixar inicialmente na região de Lisboa, como pároco encomendado, nas igrejas de S. Domingos de Rana, Carcavelos, Santa Iria, Póvoa de Santa Iria e S. João da Talha depois de concluir os seus estudos teológicos no Seminário Patriarcal de Santarém, em 1889. Em Agosto de 1900, foi nomeado Capelão-Fidalgo da Casa Real, pelo rei D. Carlos I, e colocado no Cadaval.

Ao longo dos 28 anos em que esteve ao serviço da paróquia de Alvalade e meio século de vida passado na freguesia, o Padre Jorge foi uma figura incontornável da vida social e cultural local. A par do  exercício sempre zeloso do seu ministério sacerdotal, registou minuciosamente pequenos acontecimentos, factos históricos, costumes, tradições e episódios do quotidiano alvaladense, mas também a fauna, a flora, as crenças, as superstições, as alegrias e os dramas do povo que o acolheu, cujos apontamentos manuscritos são, ainda hoje, uma referência de consulta importante para os historiadores e outros investigadores. Esse labor e interesse, que se manteve quase até ao fim dos seus dias, e que pretendia organizar numa monografia, levaria também à publicação de diversos artigos sobre o passado histórico de Alvalade na imprensa regional, como por exemplo no jornal ”Nossa Terra”, na década de 30, editado em Santiago do Cacém. Recolheu e estudou igualmente inúmeros achados arqueológicos, muitos deles encontrados ocasionalmente nos campos da freguesia e entregues em mão pelos trabalhadores rurais que conheciam o seu interesse pelos vestígios do passado. Manteve contactos frequentes e correspondeu-se com alguns eruditos e intelectuais do seu tempo como José Leite de Vasconcellos, fundador do actual Museu Nacional de Arqueologia , João da Cruz e Silva, investigador prestigiado a quem Santiago do Cacém deve algumas das principais colecções que permitiram a fundação do museu municipal , ou Francisco Soares Victor, destacado notário de Messejana, entre outros. Alguns achados extraordináriamente raros e classificados como pertencendo ao Mioceno Superior, como vários dentes  e espinhas de espécies animais há muito extintas, por ele recolhidos, fariam com que o académico da Universidade de Paris e geólogo do Instituto Geológico e Mineiro de Portugal, Georges Zbyszewsky, viesse a Alvalade interessado pela surpreendente descoberta. Dotado de um apurado sentido estético e uma sensibilidade pouco comuns à época para as questões do património e da cultura, o Padre Jorge empreendeu também várias obras de valorização e conservação na igreja matriz, ora corrigindo intervenções anteriores pouco criteriosas, ora melhorando as condições do edifício para as actividades da paróquia, e muitas vezes participando directa e pessoalmente nos trabalhos. Ensinou música, fundou e dirigiu pequenos grupos e orquestras locais, cultivando e dinamizando a juventude alvaladense. Em pleno Estado Novo e num contexto político e social que desaconselhavam a mais pequena crítica ou afronta ao regime, assumiu-se, também, como uma voz corajosa e inconformada ao lado da população contra as carências e as dificuldades que no seu entender estrangulavam o desenvolvimento da freguesia, de que é exemplo o célebre artigo “A Vila de Alvalade” publicado no Álbum Alentejano, em 1937. Quando a doença lhe tomou o corpo obrigando-o a ausentar-se de Alvalade por algum tempo para receber cuidados e tratamentos médicos especializados, o seu regresso, de comboio, foi apoteótico.  A estação dos Caminhos de Ferro foi pequena para os muitos alvaladenses que o esperavam, já noite cerrada,  e que depois o acompanharam a pé, até casa, como que devolvendo-o ao seu lar de sempre. Casou-se em 25 de Dezembro de 1949, treze anos depois  da sua aposentação sacerdotal, e faleceu em Alvalade em 8 de Julho de 1957. Estimado e respeitado pela terra que o adoptou, teve homenagem no último terço do século passado com a atribuição do seu nome à rua onde viveu grande parte da sua vida.

 

                                                                                                                                              _LPR