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A Misericórdia de Alvalade

misericordia2A assistência em Alvalade, foi mantida, durante largos anos, por instituições de ordem religiosa. Primeiramente, essa assistência era ministrada aos seus irmãos e confrades indigentes, pelas irmandades e confrarias erectas na Matriz e nas capelas filiais, tais como a Irmandade do Santíssimo Sacramento, das Almas, de S. Pedro, e as confrarias de Nossa Senhora da Conceição, do Rosário, de Santa Ana, S. Roque, do Espírito Santo, etc. Depois, tornou-se extensiva a todos os indigentes da freguesia, pela instituição da Misericórdia, fundada pelo povo, em 1570. Amparada por muitas e generosas dedicações, atravessou esta instituição beneficente cerca de três séculos, repartindo pelos pobres o que a caridade de seus irmãos lhe entregava. Além da igreja de onde dimanavam os socorros espirituais, tinha um pequeno hospital e albergaria, aonde os necessitados iam buscar o remédio, o alimento e o agasalho. “O cirurgião do partido da Câmara de Alvalade”  tinha a seu cargo os doentes da enfermaria. E, assim, o miserável, que não tinha o aconchego da família, sabia que, ao menos, no último transe, tinha quem lhe ministrasse o derradeiro caldo, lhe rezasse as orações dos mortos, as quatro tábuas acolhedoras do esquife comum, a bandeira, a cruz e o acompanhamento fúnebre dos irmãos, que só se afastavam, depois de, caridosamente, lhe terem deposto o cadáver no seio materno da terra, que se abria para o receber. Instituições de tal índole, a maldade humana nunca deveria atingi-las. Tal não sucedeu. As convulsões políticas da primeira metade do século XIX, a propaganda dissolvente contra tudo o que tinha algum carácter religioso, feriram de morte este e outros prestimosos institutos, que a solidariedade humana ou o zelo dos seus dirigentes não pode ou não soube salvar. A Misericórdia de Alvalade teve a sorte de tantas outras: sumiu-se na voragem. Extinto o muitas vezes secular concelho de Alvalade, em 1855, começou a decadência desta freguesia. Perdida a sua importância politica e social, os proprietários abandonaram-na, deixando-a entregue aos baldões do acaso, e, sem autonomia, foi, excessivamente, anexada a diferentes concelhos do Distrito de Beja, até que, em 1871, passou para o Concelho de Santiago do Cacém. Durante a sua permanência no Distrito de Beja, foram extintas as suas irmandades e confrarias e a sua Misericórdia, sendo os seus bens incorporados na Casa Pia da mesma cidade. Não foi por absoluta falta de meios que se extinguiu tão útil instituição, pois que do último inventário, feito em 1860, consta que, além da “casa do hospital, albergaria e arrecadação”, da “capela da Misericórdia e de um casarão aonde foi a igreja do Espírito Santo” possuía 87 foros, sendo alguns avultados. Com estes elementos, confrange o desconchego, a penúria a que chegou o hospital: um colchão de lã, um enxergão velho, 6 lençois, um travesseiro, uma fronha velha, duas mantas de lã, um cobertor, duas cobertas de chita, um guarda-cama, dois pratos de estanho e uma tumba. Desamparada dos que a deveriam cuidar, roída do vírus da época, a árvore, que tão boa sombra e tão belos frutos dera, ruiu sem que, ao menos, a freguesia lhe aproveitasse o tronco. Triste odisseia a sua, que, na forçada peregrinação por diferentes concelhos, foi largando a pedaços, o rasgado manto, deixando nus os desgraçados, que, aqui, tanto careciam de amparo! Hoje, que tanto se olha para o passado, que tanto se procura reatar a tradição, quem se atreveria a restaurar tão útil instituição e atrair-lhe dedicações? Quem quereria hastear a bandeira, tão sugestiva de bondade, a bandeira da Misericórdia? Quem seria, hoje, capaz de repetir o gesto lindo de Fructuoso Pires, cuja lápide sepulcral, na capela da Misericórdia, na sua simplicidade, diz tudo:

Sepultura de Fructuoso Pires

que toda a sua fazenda

deu de esmola, com que

se ordenou esta casa”…

Oh! Como se iria longe, com tais dedicações! Se a semente germinasse… Saudosos tempos, os da Misericórdia! Como informação subsidiária para a História de Alvalade diremos que a frente da casa do hospital era na Rua da Cruz, denominação adquirida, posteriormente, por existir uma cruz, sobre a porta de entrada. Esta Rua era chamada a “Rua Quente”. A Capela da Misericórdia tinha a frente voltada para a Praça, e as traseiras do edifício davam para a Travessa da Misericórdia. O casarão, aonde foi a Capela do Espírito Santo, e que, também, tinha as suas tradições beneficentes – o bodo – confinava, pelo Sul, com a Rua de Lisboa, e, pelo Nascente, com a Travessa do Espírito Santo.

_Apontamentos históricos do Padre Jorge de Oliveira (1865/1957), pároco de Alvalade entre 1908 e 1936, para uma monografia que não chegou a publicar.

2 Respostas a A Misericórdia de Alvalade

  1. José Raposo Nobre Responder

    28 de Janeiro de 2014 em 16:50

    Obrigado, Luis, por nos oferecer este belo texto do Padre Jorge de Oliveira, sobre Alvalade dos séculos em que foi Sede de Concelho, com Hospital e Misericórdia. É admirável como o Padre Jorge, não sendo Alvaladense, tanto se interessou por esta terra que o acolheu, fazendo investigação, aconselhando os seus Paroquianos nos mais diversos assuntos, criando uma Banda de Musica, tendo de ensinar musica, ainda recordo alguns.
    Sua companheira, mais tarde esposa, apoiando a população quando da chamada Pneumónica, uma pandemia de Gripe, quando ainda não tinham inventado os antibióticos. Correndo sérios riscos a D. Adelina ia a todas as casas onde haviam doentes dar a sua ajuda, morreram centenas de pessoas, informações que ouvi dos meus sogros que viviam aqui no inicio dos anos 20. Quando fará Alvalade a merecida homenagem ao Padre Jorge de Oliveira ?
    JRN

    • admin Responder

      28 de Janeiro de 2014 em 17:00

      Infelizmente já não há muitos padres assim. E que fariam falta a uma terra com as características de Alvalade. Uma pessoa culta, com elevado sentido de responsabilidade social, que muitas vezes falava em nome da população que servia reivindicando obras e melhoramentos para Alvalade e sempre disponível para ajudar no que estivesse ao seu alcance. O voluntarismo da D. Adelina é também só já conhecido pelos mais velhos. Foram pessoas a quem Alvalade muito deve, como muitas outras que restam apenas já só na memória de alguns.
      _LPR

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