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O uso da taipa nas
igrejas e outras construções em Alvalade.
Uma abordagem à
visitação espatária de 1510
A construção em terra encontra-se em todo o mundo. Onde quer que falte pedra ou
madeira, a solução é a utilização da terra. E, ao contrário, do que se pode
pensar, olhando à modéstia ou relativa modéstia da realidade portuguesa, existem
grandes edifícios e cidades inteiras construídas em terra. Uma ideia também
aventada regularmente é a de que a construção em terra foi introduzida na
Península Ibérica durante a ocupação islâmica, que aqui teria reproduzido este
processo construtivo à semelhança da realidade árabe e berbere. Trata-se de mais
um lugar-comum sem qualquer consistência histórica. Naturalmente o período
islâmico na Península continuou uma tradição muito mais antiga no mundo
mediterrânico, embora os construtores árabes pudessem ter melhorado algumas
técnicas, como no caso da taipa militar, em que à terra adicionavam cal,
edificando castelos que ainda hoje sobrevivem.
A construção em terra remontará a antigas épocas da pré e da proto-história,
quando o homem necessitou de abrigos cada vez mais elaborados e eficazes, em que
utilizavam os materiais de que dispunham na natureza. A arqueologia tem
confirmado esta afirmação.
Em Portugal, o Sul é por
excelência a área da utilização da terra como material de construção, embora em
todo o País se possa encontrar essa solução construtiva. Evidentemente, no Sul
também existe construção em pedra, mesmo em simples moradias e até em
construções de mais desqualificada função como estábulos e armazéns. A alvenaria
de pedra e cal e de pedra e barro é portanto também frequente. A pedra é
geralmente o xisto, a rocha mais abundante no sudoeste português, e a argamassa
o barro, na falta de cal. Efectivamente, não existem aqui terrenos calcários e a
cal tem de vir de fora e fica, portanto, cara. Um exemplo da dificuldade em
obter esse produto: em 1687, uma carreta foi de Alvalade buscar uma carrada de
cal a Milfontes: a cal custou cinco tostões, quantia que naturalmente incluía o
frete marítimo; o transporte até Alvalade ficou em 12 tostões. Total: 17 tostões
(1700 réis). Mais caro o transporte que o produto![1]
Por isso, a
ideia de um Alentejo, todo ele, branquejando de cal na planície não convém a
todo o Alentejo. Lugares havia, sobretudo em zonas de maiores influências de uma
tradição mais serrana, com taipas e alvenarias de xisto sem reboco de cal e
areia, em que muitas das casas, principalmente as que eram construídas de pedra
e barro, ofereciam um aspecto escuro, que justificava topónimos como Casa Branca
que significavam nessas áreas a escassa presença de casas brancas.
A construção
em terra é realizada com três técnicas: a taipa, o adobe e o tabique. Falaremos
apenas na primeira, como nos foi proposto.
Basicamente,
a construção em taipa baseia-se no enchimento e compactamento com terra
previamente molhada de um espaço entre taipais, como uma cofragem, que em
camadas sucessivas, e desencontradas para obter travamento, iam edificando as
paredes. Em geral, os caboucos eram de pedra até cerca de meio metro para evitar
a acção da humidade ascendente. Com efeito, um dos pontos fracos da taipa é a
humidade e a falta de protecção de um reboco, que se fazia de uma argamassa de
cal e areia. Por isso, a taipa é uma solução que também tem uma envolvente
climática, uma vez que é mais apropriada para áreas menos pluviosas.
Para dar
mais consistência aos edifícios, construíam-se por vezes contrafortes, os
moirões, que impediam desequilíbrios das paredes. Os moirões eram também usados
nas edificações de pedra.
Por outro
lado, a qualidade da taipa dependia também da matéria-prima: terra mais ou menos
argilosa, mistura maior ou menor de saibro, etc. Depois também dependia dos
taipeiros: dizia-se popularmente que devia ser “transportada por um coxo e
batida por um louco”, significando a lentidão que era necessária para
consolidação da taipa e a energia exigida a quem tinha o trabalho de usar o
pilão para compactar bem a terra.
No antigo
concelho de Alvalade, há notícias documentais de construção em taipa. As
visitações quinhentistas da Ordem de Santiago referem-na, embora, em geral, as
igrejas, especialmente as matrizes, o principal objecto dessas inspecções,
fossem, como edifícios de prestígio, em alvenaria de pedra e cal ou pedra e
barro, até porque os mestres seriam muitas vezes de fora.
É
interessante a menção à técnica da taipa em igrejas como a de Alvalade, vila que
viu a sua matriz reedificada em tempo de D. Manuel, decerto com a intervenção do
comendador da Ordem de Santiago. Os visitadores desta última, em 1510, ao
descreverem a igreja matriz, diziam que
“a qual
capela (mor) é de abóbada, e todas as paredes são de tijolo e cal [… ] O arco
principal da dita capela é todo de tijolo e cal […] a sacristia é de abóbada e
as paredes são de taipa com formigão de tijolo e cal […] O corpo da igreja é de
uma só nave com três arcos de tijolo, sobre os quais está madeirada e olivelada
de madeira de castanho e pinho, e é mui bem telhada e cintada de cal, e as
paredes são de taipa com alicerces de pedra e cal e formigões de tijolo com face
de cal de dentro e de fora.”
Apesar da
referência à taipa, estas passagens precisam de ser esclarecidas. Na verdade o
termo formigão significa um tipo de construção semelhante à taipa, mas em que a
terra é substituída por cal hidráulica, fazendo uma argamassa de grande
consistência e durabilidade. Já os romanos utilizaram esta técnica para obterem
massas tão duras como o cimento e mais duráveis (o opus signinum).
No caso
concreto, parece, pela redacção do visitador, que o termo formigão se distingue
da taipa. Provavelmente, o que o visitador queria dizer era que a taipa de
formigão tinha mistura de cal e tijolo, ou cal e cerâmica, como vemos por
exemplo no opus signinum romano da fase tardia.
Estamos
perante uma matriz, em que foram aplicados meios financeiros de algum vulto. Daí
a presença da cal bem como de cantarias. Não é referido o portal principal, de
cantaria lavrada, manuelino, que hoje podemos apreciar, mas trata-se
estilisticamente de um portal daquela época. As abóbadas da capela-mor e da
sacristia também revelam os cuidados em dar à igreja uma maior dignidade.
Segundo o
mesmo documento, quase todos os restantes templos do termo de Alvalade, a maior
parte modestas ermidas, eram edificados em terra. Sem o peso de abóbadas, a
taipa era a melhor e mais barata solução para as paredes.
O hospital
do Espírito Santo tinha três casas, uma dianteira e duas câmaras para os pobres;
as paredes, de taipa, e a cobertura de telha vã.
A ermida de
S. Pedro, uma simples casa sem distinção de ousia e corpo, era também de taipa,
coberta de telha vã; o visitador acrescentava que não tinha portas, mas somente
“uma entrada que lhe deixaram quando fizeram as taipas”. Em 1533, a ermida que
havia caído foi reconstruída, com paredes de taipa e telha vã. De taipa era
também o altar.
A ermida de
S. Roque, por sua vez, não tinha mais que a capela, “olivelada”, isto é forrada,
de castanho, sendo as paredes e o altar de taipa. No entanto, anos depois os
visitadores escreviam que “as paredes são de taipa de formigão”, com os cunhais
e o portal de tijolo de alvenaria, decerto resultado de obras recentes que a
beneficiaram em muito.
A ermida de
S. Sebastião era então uma casa muito velha, com altar de alvenaria. Mas em
1533, a capela já tinha abóbada de nervura cruzada, em pedraria, e as paredes de
“taipa com seu formigão” No entanto, o corpo não estava erguido além dos
alicerces de pedra e barro, certamente esperando a conclusão das paredes em
taipa.
Quanto à ermida de Santa
Maria do Roxo, templo de mais nomeada, oferecia as duas soluções construtivas: a
capela-mor, abobadada com arcos de pedraria, em cuja chave central estava
gravada a cruz de Santiago, era de alvenaria, de pedra de xisto certamente; o
corpo da ermida era coberto de telha vã, e, sem abóbada que exigisse maior
sustentação, as paredes eram de taipa. Note-se que, tal como na matriz, também
aqui o portal era de pedraria, o que só por si mostra uma maior importância.[2]
O uso da
taipa que no princípio do século XVI era tão usada em edifícios religiosos, não
deixaria de o ser, por maioria de razões, nas casas de habitação. A vila de
Alvalade seria nessa época uma vila de taipa, já nas casas, já nos muros de
adros de igrejas, já nas cercas divisórias e protectoras das pequenas courelas e
vinhas, enfim em todo o tipo de construções. Mais tarde, vemo-la, por exemplo,
nos moinhos de vento.
Em 1758,
depois do terramoto do 1.º de Novembro de 1755, escrevia o prior: A terra
padeceo de ruina no dia do terramoto de mil setecentos e cinquenta e cinco
principalmente nas igrejas de que as ermidas cairão demolidas e só a igreja
matriz reparada a requerimento do pároco na mesa da consciência aonde pertence,
a Misericórdia e Espirito Santo pello provedor da mesma (...) junto a esta villa
tem duas ermidas, a de S.Pedro já há muitos annos demolida, outra a de S.
Sebastião totalmente arruinada no dia do terramoto”.
Efectivamente outros dos problemas da construção em taipa era a sua fraca
resistência aos tremores de terra. O pároco de Milfontes atribuía a intervenção
divina o facto de nenhuma das casas da vila ter caído apesar de serem de taipa.
De certo
modo podemos dizer que em Alvalade, como em toda esta região, a taipa constituiu
uma arquitectura popular, no duplo sentido da sua utilização pelas classes menos
abastadas e da sua extraordinária difusão. No entanto, esta afirmação não
completa o papel da taipa, usada em Alvalade em edifícios sobradados, alguns de
notável dimensão e qualidade arquitectónica. O próprio edifício que a tradição
diz ser casa de morada de juízes e escrivães, também de dois pisos, é de taipa.
No campo, muitos dos muros
que rodeavam a pequena propriedade eram de taipa. Nos arredores das povoações e
em zonas onde surgia a repartição da propriedade, caracterizada pela policultura
e tratamento intensivo da terra, o hábito de cercar essas pequenas parcelas
divulgou-se sobremaneira. Tratava-se de proteger, dos animais e das pessoas, as
valiosas culturas (vinhas, hortícolas, olivais) existentes nessas parcelas, para
o efeito “vedadas e coimeiras”. Em Colos, por exemplo, as próprias posturas
municipais contemplavam a questão do “tapejo” de vinhas, hortas e, até,
ferragiais.[3]
Estas taipas, de que ainda existem vestígios, marcavam a paisagem. Sobre cabouco
de pedra, erguiam-se a cerca de um metro de altura. Muitas vezes, eram
“bardadas”, isto é, encimadas por uma camada de mato, coberto de terra batida em
ângulo; pranchas de cortiça substituíam por vezes o mato. Mato ou cortiça
sobressaíam alguns centímetros para cada lado do muro, melhorando a protecção e
dificultando a transposição por pessoas ou animais.[4]
Os viajantes estrangeiros reparavam nesses muros cobertos de cortiça e
faziam-lhes menção nos seus livros de viagens.[5]
Parecem ter dado origem a certos topónimos com o elemento “taipa” (Vale das
Taipas, por exemplo).
Naturalmente, a construção
de casas e, onde os havia, de muros para cercas exigia extracção de terra.
Quando esta se fazia em grande quantidade, a câmara era obrigada a regulamentar.
Assim, em Colos, em 1709, uma postura proibia a extracção indiscriminada de
terra em volta da vila, e reservava um local para o efeito. A respectiva coima
era a dobrar quando o infractor fosse pedreiro ou servente.[6]
A utilização do revestimento
de cortiça em habitações e outros edifícios está bem testemunhada nesta região.
Em 1517, a igreja de Milfontes tinha a sacristia forrada de cortiça, material
que também era aplicado na do Cercal. Nesta, a nave, de paredes em pedra e
barro, era “olivelada de cortiça toda pintada”, tal como o alpendre. Este
material, não obstante as suas propriedades isolantes, seria considerado menos
nobre do que a madeira de castanho, que revestia a capela-mor.[7]
Anos depois, em 1554, tanto a capela-mor como o corpo da igreja estavam
emadeirados de castanho e encortiçados,[8]
possivelmente a madeira no tecto e a cortiça nas paredes. Note-se que se a
cortiça era abundante no Cercal, o madeira de castanho também, pois no local
havia um bom souto, que deixou sinal na toponímia.[9]
Quando, em chuvosa noite de
Janeiro de 1573, D. Sebastião passou em Colos, aqui pernoitou numas “casas
térreas e pequenas”, certamente de taipa, com apenas dois compartimentos
“habitáveis”, por serem forrados de cortiça.[10]
Região produtora de cortiça, o litoral alentejano usava este material, de que
dispunha facilmente e em grande quantidade. Mas há notícias do seu uso noutras
regiões. Por exemplo, no convento do Cabo de S. Vicente e no dos Capuchos, em
Sintra.[11]
Encontramos uma outra
curiosa utilização desta matéria-prima, no sítio de Baleizão, em Santo André.
Aqui, podemos observar uma autêntica alvenaria de cortiça na empena do monte,
com argamassa de terra e reboco de cal e areia. Portanto, a terra, a cortiça e a
cal associadas.[12]
Acrescente-se que certos materiais, como a cana, usados no forro de casas de
habitação, poderão constituir solução construtiva mais recente. Pelo menos, não
aparece referência na documentação consultada, o que, na realidade, não é
comprovativo do seu não uso. De qualquer modo, eles inscrevem-se numa normal
tendência de utilização de matéria-prima local. A propósito, ainda recordo, em
Milfontes, uma casa (aliás, dita “cabana”), feita em junco, onde morava uma
família.
A partir
destes exemplos, carreados um pouco ao acaso, confirma-se que a utilização da
terra na construção, através da técnica da taipa, teve forte presença na região.
Ela era sobretudo usada em construções modestas, mas não deixava de o ser em
edifícios mais prestigiosos como as igrejas. Também nestas, contudo, o seu uso
ficou reservado a edificações mais singelas, parecendo clara a consciência das
suas limitações quando se tratava de pedir às paredes maior resistência, como no
caso das coberturas em abóbada. No entanto, como ainda podemos ver hoje, o uso
da taipa não se terá reservado a edifícios de um só piso; em todo o caso, numa
região em que predominavam largamente as pequenas construções térreas, o seu
domínio foi notável, nalguns casos quase absoluto. De certo modo podemos dizer
que aqui a taipa constituiu uma arquitectura popular, no duplo sentido da sua
utilização pelas classes menos abastadas (embora não só) e da sua extraordinária
difusão. Não é de esquecer igualmente a grande utilização da construção em taipa
aplicada aos muros divisórios e protectores da pequena exploração agrícola na
periferia de algumas povoações e noutros locais onde se desenvolveu a
policultura e a repartição da propriedade. Frequentemente, a rede, mais ou menos
densa, desses muros baixos, não rebocados, nem caiados, marcava a paisagem e
indiciava o tipo de apropriação económica do espaço.
Quanto ao
revestimento de cortiça, não estando necessariamente associado à construção em
terra, pareceu, contudo, interessante tratá-lo simultaneamente, uma vez que
ambos surgem particularmente referenciados nas fontes e ambos constituem
soluções construtivas baseadas em materiais locais. Nas duas circunstâncias
referenciadas de utilização da construção em terra, a cortiça aparece utilizada
em revestimento, num caso para melhorar a qualidade habitacional, e, no outro,
como elemento de protecção e conservação. Isto, muito séculos antes da moderna
utilização da cortiça e dos seus derivados. A potencialidade plástica de ambas
as matérias-primas, as suas qualidades isolantes, portanto de protecção, a sua
disponibilidade, a facilidade do seu uso, a ancestral relação com o homem e o
consequente desenvolvimento de competências no seu aproveitamento estão na base
do seu sucesso.
António
Martins Quaresma – Historiador
Membro do
Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja
16 de
Setembro de 2005
[1]
Quinzenário Nossa Terra (editado em Santiago do Cacém), n.º 26, 3 de
Julho de 1932 (agradeço a referência a João Madeira).
[2]
Informações gentilmente cedidas pelo Dr. Luís Pedro Ramos. Grafia aqui
actualizada. Ver também
http://www.alvalade.info/djorge.html.
Cfr. VITOR PAVÃO DOS SANTOS (org.), Documentos para a História da
Arte em Portugal. Visitações de Alvalade, Casével, Aljustrel e Setúbal –
Ordem de Santiago, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1969.
[3]
Arquivo Histórico Municipal de Odemira, Posturas, 1691-1732, GB 2/1,
passim.
[4]
ANTÓNIO MACHADO GUERREIRO, Colos – Alentejo – Elementos Monográficos,
Odemira, Câmara Municipal de Odemira, 1987, pp. 67 e 94.
[5]
LÍVIO DA COSTA GUEDES, A Viagem de Christian, Príncipe de Waldeck, ao
Alentejo e ao Algarve descrita pelo Barão von Wiederhold 1798, Lisboa,
1992 (separata do 60.º vol. do Arquivo Histórico Militar), p. 171.
[6]
AHMO, Posturas, 1691-1732, GB 2/ 1, fs 29 e 30.
[7]
IAN/TT, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago, visitação
n.º 165, pp. 3 e 4v.º
[8]
Idem, ibidem, visitação n.º 197, fs. 42 e 42v.º
[9]
FONSECA, LUÍS ADÃO DA, “Vasco da Gama e a Ordem de Santiago”, in Ordens
Militares. Guerra, Religião, Poder e Cultura, vol. 2, Lisboa, Edições
Colibri e Câmara Municipal de Palmela, 1999, p. 291.
[10]
FRANCISCO DE SALES LOUREIRO, Uma Jornada ao Alentejo e ao Algarve,
Lisboa, Livros Horizonte, 1984, p. 92.
[11]
ROBERT SOUTHEY, Journals of a Residence in Portugal 1800-1801 and a visit
to France Supplemented by extracts from his corespondence (ed.
ADOLFO CABRAL), Oxford, at the Clarendon Press, 1960, p. 57.
[12]
Agradeço a indicação e as fotos a José Matias.
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