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Para uma intervenção no Centro Histórico de
Alvalade
ALVALADE, para se assumir
como vila de cultura, para valorizar o seu património histórico e construído,
necessita também de criar património e valorizar o futuro. Não podem existir
duas vilas em que a fronteira é o tempo.
A estratégia para uma intervenção deve partir de uma leitura orientada, assente
numa reflexão múltipla.
O objectivo deve ser o de estabelecer prioridades consubstanciadas em
propostas/sugestões concretas com elevado potencial estruturante.
Valorizar o património de Alvalade só faz sentido numa perspectiva dinâmica, de
inserção no futuro, apontado para uma vila que deve recuperar a sua grandeza.
No fundo é relacionando os “locais de interesse” com novas interpretações e uma
nova consciencialização da vila e seus arredores, em que as ligações são agentes
para a confirmação e valorização de equilíbrio subtil entre a estrutura
morfológica da paisagem moldada através dos anos e a estrutura da paisagem
natural que sofre um lento processo de transformação.
Deve-se procurar uma solução sustentada, em que todas as opções poderão ser
tomadas em conjunto, individualmente ou parcialmente, independentemente da ordem
cronológica, no respeitante a qualidade e profundidade da intervenção.
Também desta maneira, do ponto de vista financeiro e como estratégia de
exequibilidade, deve ser equacionada qualquer solução proposta.
Além disto, numa proposta segmentada permite o recurso a diversos financiamentos
estatais ou comunitários, ou ainda privados, podendo-se adequar a soluções ou
intervenções parciais.
Esta situação poderá ser a mais atractiva para interessar promotores privados a
executar parte, ou partes, de uma proposta assim versátil.
Deve-se procurar tirar partido de equipamentos e situações existentes e
integra-los, valorizando-os, de modo a tornar a sua fruição mais agradável.
Procurar manter o “espírito” das pré-existências, não intervindo violentamente.
Não procurar a intenção de deixar “marcas”… mas datar as intervenções, assumir
as opções.
Melhorar, subtilmente ou não, as situações existentes sem alterar as suas
particularidades.
Manter-se as características dos caminhos de pé posto, dos chafarizes, dos
miradouros, das vivências, das actividades, das memórias…
Quando se previr algo de novo, adoptar-se uma linguagem contemporânea, tanto ao
nível formal como a nível de materiais.
Todas as soluções deverão ser sustentadas e justificantes, de molde a permitir
uma razoabilidade financeira, com uma proposta de execução por fases e
estruturada de maneira a que, pelo facto de se alterar ou anular uma das fases,
não se irá afectar grandemente o todo.
Neste sentido, como vector orientativo, a integração das novas actividades,
programas e intervenções na mole construída e humana tem primordial importância.
Existe sempre o risco de se proporem soluções excelentes do ponto de vista
turístico, formal, valorizar partes importantes…mas esquecendo-se das populações
residentes e, potencialmente, os maiores utilizadores da solução prevista ou
seja deve-se FOMENTAR A ACTIVIDADE LOCAL
Deve-se ter em conta o capital que estas pessoas representam, como elementos
qualificadores, do ponto de vista abstracto e tentar uma melhoria geral da
qualidade de vida geral nas áreas abrangidas.
O sucesso de uma intervenção deste tipo passará sempre pela participação local
na vivência da proposta.
Num projecto de intervenção global, em várias vertentes, deve-se procurar CRIAR
UM MOTIVO, criar alguma coisa que seja identificador, que seja um desígnio
local, que seja motivador para os intervenientes….e já se viu que Alvalade tem
esse potencial humano e motivador
Podem-se elencar alguma sugestões de intervenção cultural destinado por um lado
à população do concelho e por outro lado tornar turisticamente mais aliciante
uma estadia em Alvalade e tentar que as visitas ao concelho sejam mais
demoradas.
Este programa poderia ter como base os seguintes vectores fundamentais:
Interessar os empresários da região e estabelecer com eles protocolos ao abrigo
da lei do Mecenato para poder financiar as várias actividades programadas;
Ligação às várias escolas da freguesia e definir os seus alunos como
público-alvo preferencial de forma a conseguir despertar nos jovens o gosto pela
cultura e pelas várias formas de arte, por novas actividades, pela história e
desenvolvimento da sua terra.
Aproveitar as estruturas e edifícios das várias associações culturais e
recreativas do concelho de forma a integra-las neste programa;
Recuperação de edifícios de valor histórico tendo em vista a instalação de
estruturas de apoio ao visitante, bem como outras iniciativas como exposições,
mostras das actividades da região, pequenos espectáculos, etc.;
Como exemplos de algumas actividades para serem equacionadas na sua realização
podemos ter Atelier’s, tendo como destinatários – jovens em idade escolar, em
complementaridade com as actividades curriculares próprias da sua escolarização.
Atelier’s de escrita para jovens; Ateliers de representação; Ateliers de
construção/reparação de instrumentos agrícolas tradicionais; Ateliers de
técnicas de construção tradicional
Cursos de verão
Destinatários – Jovens em idade escolar (Ensino secundário, pré-universitário e
universitário)
Trata-se de dar formação a futuros profissionais, tanto da região como de fora.
Temas possíveis:
Arqueologia e Património
Objectivo – Estudar, restaurar, valorizar e divulgar o Património cultural da
região.
Vida e Cultura Medieval
Objectivo – Estudar e divulgar a História e cultura medieval, com base nas
comemorações actualmente existentes em Alvalade
Artes plásticas
Objectivo – aproximação de artistas conceituados aos artistas da região dando a
estes a possibilidade de entrar em contacto com as correntes predominantes no
mundo das artes plásticas, proporcionando-lhes um acesso mais fácil tanto ao
mercado como ao público em geral.
A partir destas hipóteses pode-se continuar para um sem número de actividades e
conceitos de maior ou menor envolvência da população local e por pessoas que
gostam e visitam Alvalade.
O primeiro passo está dado…que é o mais difícil…o factor humano existe, a
vontade existe, a participação existe…agora será definir objectivos, metas,
modos de execução, de actuação, atitudes.
E que podem passar por coisas tão simples como a manutenção da arquitectura e
estrutura tradicional, modernizado quando necessário sem desvirtuar ou
descontextualizar, o recuperar de materiais e tradições, de actividades,
devolver vida ao Centro Histórico, o sentido de comunidade…um sem numero de
situações que serão certamente possíveis em Alvalade.
Francisco Lobo de Vasconcellos – Arquitecto
Presidente do Núcleo de Arquitectos do Litoral Alentejano – Secção Sul da Ordem
dos Arquitectos
16 de Setembro de 2005 |