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As Igrejas de Alvalade na Visitação de D. Jorge,
Mestre de Santiago, no ano de 1510
Os registos das visitações efectuadas pelas
Ordens Militares constituem fonte de grande interesse para a História. Para
além das visitas paroquiais, normalmente a cargo do bispo ou de um seu
emissário, também as Ordens Militares tinham o direito de visita e inspecção nas
localidades, comendas, ou territórios da sua jurisdição. Desse contacto directo
com os lugares e as populações radicadas nas diversas comendas, ficaram notícias
e informações sobre a vida das comunidades, dos seus costumes e tradições, das
paróquias, da cultura, da arquitectura, dos acervos dos templos, da toponímia,
da assistência religiosa e do direito canónico. Através das visitações as Ordens
Militares pretendiam conhecer o seu património e a vida dos seus representantes
no seio das comunidades locais. No que concerne aos bens era seu dever fazer o
respectivo levantamento e inventário, verificar o seu estado de conservação, e
se fosse necessário mandá-los reparar dentro de um determinado prazo, e de
acordo com a renda que o seu detentor tivesse. Relativamente às pessoas,
sacerdotes e demais representantes das Ordens, o objectivo dos visitadores era
saber como viviam e se o faziam de acordo com o espírito da Ordem e da sua
Regra, e como administravam os bens que lhe estavam confiados.
A visitação que
aqui se analisa parcialmente, cujo texto original está depositado na Torre do
Tombo, decorreu entre os dias 22 e 27 de Novembro de 1510 (dois meses depois
de Alvalade ter recebido o foral manuelino), e é da responsabilidade da Ordem de
Santiago da Espada, que detinha a comenda de Alvalade.
Foi
dirigida
pessoalmente por D. Jorge de Lencastre (1), Mestre da Ordem, que
se fez acompanhar por D. João de Braga, Prior-mor e segunda dignidade da
hierarquia dos espatários, e por Francisco Barradas, seu chanceler. O escrivão
escolhido foi Pero Coelho.
Nesse ano,
residiam na comenda de Alvalade 130 vizinhos (cerca de 585 habitantes). O
comendador era D. João de Sousa, radicado em Ferreira do Alentejo, igualmente
cabeça de comenda que também detinha.
A visitação
iniciou-se na Igreja de Santa Maria (actual igreja matriz), onde oficiava
Estevão da Frota, clérigo da Ordem de Santiago, com obrigações de missa aos
Domingos e festas, cura das almas e de tesoureiro da igreja, que habitava umas
casas confinantes com o adro.
Na primeira
observação os visitadores constataram que a igreja não possuía sacrário, facto
gravoso que iria merecer especial atenção nas determinações lavradas no final da
vistoria.
A igreja, de nave
única, apresentava a capela-mor abobadada, com nervuras de cantaria e três
chaves, onde se destacava o arco-cruzeiro (de tijolo e cal) com "... dous
capiteis de pedra muito lavrados e boõs " . O altar-mor (feito
em pedra e cal) elevava-se sobre três degraus e exibia um grupo escultórico
constituído por uma imagem de Nª Senhora com o Menino Jesus ao colo, dentro de
um pequeno retábulo " com portas tudo velho ". A Nª Senhora tinha
vestimenta de linho e uma beatilha de rás, e o Menino outra vestidura. A ladear
o altar-mor e junto ao arco-cruzeiro existiam dois pequenos altares secundários,
em alvenaria, respectivamente da parte da Epístola e da parte do Evangelho "
nos quaes estam duas imagees de pao muito velhas ". No altar do lado
da Epístola destacavam-se algumas pinturas murais, concretamente três imagens:
uma Santa Catarina, um São Francisco e um Santo António. Ainda à direita, uma
porta com boa fechadura dava acesso à sacristia, também abobadada. O altar-mor e
os altares laterais eram resguardados e defendidos por um gradeamento de madeira
colocado no arco-cruzeiro "... no dicto arco estão huuas grades de
paao novas que cerquam os dous altares que estam no corpo da igreja as quaes sam
bem fechadas com o seu ferrolho e fechadura e chave ". O concelho
(ou seja a câmara) tinha dotado a igreja de uma pia baptismal, e no exterior,
adossado à frontaria, levantou um campanário com dois sinos, elementos que os
visitadores também registaram.
O templo,
enquanto edifício, não apresentava problemas merecedores de reparo: o telhado
estava bem conservado e tinha um bom forro em madeira de castanho e pinho;
possuía boas paredes de taipa, bem rebocadas, sobre fundações de pedra, cais, e
formigão de tijolo; as portas e fechaduras eram novas.
Como era também
seu dever a comissão inspectora mediu o adro e as várias secções e volumes da
igreja, que constataram ter as seguintes dimensões:
- Capela-mor:
sete varas e terça de comprido (à volta de 8 m), por cinco varas de largura
(5,50 m);
- Sacristia: três
varas de comprimento (3,30 m), por duas varas e meia de largo (2,65 m);
- Nave: catorze
varas e duas terças de comprido (16 m) por seis varas e meia de largo (7 m);
- Adro: do portal
até ao limite poente tinha vinte e cinco varas e duas terças (28,20 m); da porta
lateral ao limite sul (que confinava com a residência do prior) mediu dezanove
varas (20,90 m); da traseira da capela-mor até ao limite oriental seis varas e
meia (7,15 m); a área total do adro era de cento e oitenta e seis varas ou seja
204,60 m.
Os paramentos,
ornamentos, livros e outros objectos de culto existentes na igreja, foram também
minuciosamente avaliados e inventariados.
No grupo das
alfaias de prata anotaram a existência das seguintes peças:
- Uma cruz de
prata branca que tinha um crucifixo dourado e capiteis que com o seu pé pesou
quatro marcos e duas onças (965,46 gr);
-
Um cálice e
patena de prata parcialmente dourado, que pesou um marco e sete onças e meia
(444,695 gr);
-
Um cálice e
patena de prata, dourado, com o pé quebrado, que pesou um marco e seis onças
(401,66 gr);
- Um cálice de
prata branca, que pesou dois marcos menos meia oitava (444,69 gr);
- Uma custódia
de prata branca com quatro coruchéus, cadeias de prata e fechos ”... a
quall deu elrey Dom Manuel, meu senhor, per a prata que foi tomada
à igreja ” que pesou três marcos (688,56 gr).
A análise que os
visitadores fizeram aos paramentos revelou uma situação decepcionante. Grande
parte das peças estava em muito mau estado, e algumas totalmente inutilizadas:
- Uma vestimenta
de cetim verde com savastro de cetim preto, aveludado, muito velha e rota;
- Uma vestimenta
de zarzagania, comprida, muito rota sem condições para ser usada;
- Duas alvas sem
ornamentos, velhas e rotas;
- Uma alva muito
velha e rota;
- Uma capa de
zarzagania, velha.
- Uns regaços de
alva de Damasco, velhos.
Neste quadro de
penúria, salvavam-se, quase por milagre, uma capa de Damasco verde e veludo
roxo, já usada, e uma vestimenta de Damasco alionado, de bordado raso, ambas
oferecidas pelo Comendador.
No tocante aos
ornamentos, a situação era igualmente preocupante:
- Um frontal de
rás, usado, que servia no altar-mor, oferecido pelo Comendador.
- Dois frontais
de sarja verde e vermelha, muito velhos e rotos que serviam nos outros dois
altares;
- Quatro manteis
de linho, três usados e um velho e roto.
- Um pedaço de
almeizar, velho e roto.
A excepção deste
cenário inexplicável, eram três toalhas lavradas de ponto real que serviam nos
altares, e quatro mesas de toalhas de Flandres.
Encontrou-se
ainda uma arca onde os paramentos e ornamentos eram guardados, que os
visitadores entenderam ser insuficiente.
No que concerne
aos livros litúrgicos foram também identificadas várias deficiências. Dos nove
códices existentes, cinco estavam desencadernados. Surpreendentemente a igreja
não tinha um livro com os rituais da administração dos sacramentos " Achamos
que a dicta igreja carecia de livro que tevese o oficio de bautizar e da
encomendacam dos finados o que he cousa mui necessaria ...".
Regista-se o
facto positivo de a igreja já possuir, na época, dois livros impressos (dois
missais). No seu conjunto foram encontrados os seguintes livros litúrgicos:
-
Um missal
de forma, grande e bom, do costume de Évora que deu João de Sousa,
Comendador (livro impresso que continha textos litúrgicos e ofícios
característicos da diocese de Évora);
-
Um missal
de forma, romano, velho roto e desencadernado (livro impresso com as missas
segundo o rito romano);
-
Um colectário
pequeno escrito em pergaminho, já velho (era o livro do presidente do
coro com as orações, ou colectas);
-
Um domingal
de lenda escrito em pergaminho, muito bom, desencadernado (este livro
continha as missas dos domingos);
-
Um santal
de lenda e canto, escrito em pergaminho, muito bom, desencadernado (livro
que continha as missas para as festas dos santos, e hinos);
-
Um saltério,
de pergaminho, velho e desencadernado (continha os salmos da Bíblia
distribuídos pelos dias da semana);
-
Um epistoleiro,
de pergaminho, com algumas missas apontadas em cinco cordas, muito bom,
desencadernado (continha as epístolas e algumas missas cantadas numa pauta de
cinco linhas);
-
Um evangeliário,
de pergaminho, usado, e bem encadernado (livro que continha passagens dos
evengelhos que se liam ou cantavam na missa);
-
Um oraçoeiro,
de pergaminho, com boa letra e bem encadernado (continha
hinos musicados).
No grupo das
alfaias de latão, arame e estanho do acervo da igreja, foram registadas também
várias peças:
- Um turíbulo
de latão, pequeno e muito velho;
- Quatro
castiçais de açofar, que serviam nos altares dos quais dois já eram muito
velhos, mas o outro par, oferecido pelo comendador, foi considerado bom;
- Uma
bacia para o ofertório que Isabel Vaz, moradora em Setúbal, teria oferecido à
igreja;
- Uma
caldeira de água benta velha e rota e dois hissopes de ferro: um novo e outro
velho;
- Dois
pares de galhetas de estanho: um par novo e outro velho;
- Uma campainha
pequena de mão, que usavam no acto da dupla elevação e nas procissões;
- Uma custódia de
latão;
- Uma cruz de
madeira, pintada, com um crucifixo;
- Uma boceta de
hóstias nova e pintada, muito boa;
-
Umas obradeiras
pequenas, que estavam velhas e já não faziam hóstias;
- Uma caixa
pintada e muito boa onde se guardavam os corporais.
No dia seguinte
(23 de Novembro) os ilustres visitadores continuaram a vistoria e o seu
inventário inspeccionando a ermida de S. Pedro, que na época se situava onde
está hoje o cemitério público. Depararam-se com um pequeno templo, muito
degradado, de taipa, com uma só divisão (com 6,60 m de comprimento por 3,85 m de
largura), sem portal nem porta na sua única entrada, sem ousia, sem altar, com
uma cobertura de telha vã, e circundado por um valado. Apresentava ainda um
alpendre incompleto, em taipa, devidamente emadeirado, mas por telhar. No
lugar do altar e os visitadores encontraram “ huma tavoa muito estreita e
piquena sobre duas estacas omde estaa huua imagem de paao de São Pedro, muito
piquena e velha e na dita tavoa estão tres pedacos de manteis muito velhos ”. Nada
mais existia no interior da ermida.
Deficientemente
conservada e sem estar provida do essencial não foi, decerto difícil, verificar
que a pequena ermida não tinha “obrigação de nenhuuma missa ”.
Por fim os
visitadores quiseram saber a origem do templo e/ou quem o teria edificado,
factos desconhecidos para os oficiais do concelho e da comenda que acompanhavam
a visita, que apenas souberam informar que a câmara já o teria restaurado
algumas vezes, assim como Lopo Afonso (provavelmente um morador devoto de S.
Pedro),
Seguiu-se, no
mesmo dia, a visita à igreja de Santa Maria do Roxo. O templo, de uma só nave,
exibia uma imagem de Nossa Senhora "com seu tabernacollo por detras"
no altar-mor. Na capela-mor destacava-se a abóbada de várias nervuras
de tijolo e capitéis de cantaria, encerradas numa chave com as insígnias
espatárias. O arco-cruzeiro, também em tijolo, era recente. Verificaram que a
igreja estava bem telhada e emadeirada, e o piso ladrilhado em tijolo. Na nave
do templo, a ladeá-la, registaram dois altares secundários: um invocando Santa
Ana, e outro dedicado a S. Pedro. Sobre o arco-cruzeiro existia um campanário
com um pequeno sino “ com que tamjem a Deus ”. Na frontaria um portal de
cantaria e uma galilé de quatro arcos foram os principais elementos registados:
"... e o portall da porta primcipall he feito de pedraria (...); Diamte da
porta primcipall estaa huu alpemdre muito bom de quatro arcos bem obrado e bem
madeirado de madeira de castanho e cuberto de telha vãa ". Ao redor um
amplo adro circundava o edifício.
A igreja possuía
apenas um livro litúrgico, concretamente um missal manual (códice
com as orações e rito das missas) escrito em pergaminho, à mão, que os
visitadores classificaram de “muito bom”, e não tinha um único paramento.
Na medição dos
volumes e adro da igreja verificaram as seguintes dimensões:
- Capela-mor:
quatro varas de comprido (4,40 m) por três varas e terça de largo (3,67 m);
- Nave: sete
varas e cinco sesmas de comprido (8 m aprox.) por cinco varas e meia de largura
(6,05 m);
- Galilé: cinco
varas e terça de comprido (5,85 m) por três varas de largo (3,30 m);
- Adro: da frente
da galilé até ao limite poente mediu vinte e uma varas (23 m); vinte varas (22
m) da igreja ao limite sul; da igreja ao limite norte medira trinta varas (33
m); a área total do adro era de cento e setenta varas, ou seja 187 m.
No registo dos
objectos de prata e ornamentos foram inventariadas as seguintes alfaias:
- Um cálice de
prata branca, "... que pesara huu marco pouco mais ou menos "
(cerca de 229,52 gr);
- Uma cruz de
estanho, dourada, com um crucifixo;
- Um frontal
velho;
- Um frontal,
pintado, com um crucifixo;
- Um frontal
velho, de linho, pintado, que estava no altar;
- Quatro lençois
de linho;
- Nove manteis,
que serviam nos altares;
- Quatro toalhas
de mãos: duas lavradas e duas brancas.
A Mem Daver, João
Afonso Centeio homees amtigos, e a João Fortes e João Afonso
(representantes locais da Ordem e do concelho), foi perguntado se sabiam quem
tinha edificado a igreja, respondendo estes “ que os primeiros povoradores
das irmidas e que ho concelho tem ha aministraçam della e a corregeo já
per certas vezes e o concelho como padroeiro he obrigado de a correger e
repairar quamdo lhe necessario for ”.
Do Roxo os
visitadores seguiram para a ermida de S. Roque (de que ainda subsistem vários
vestígios), situada na herdade do Faial. O Mestre de Santiago e a sua equipa
confrontaram-se com outra exígua ermida rural, de uma só divisão (medindo 4,95 m
de comprimento por 4 m de largura), de paredes de taipa, com um pequeno altar
igualmente de taipa “... no quall estaa huua imagem de São Roque e detras
della um retabulo piqueno com suas portas velho”.
Dois velhos
manteis no altar eram os únicos ornamentos da ermida, que Mem Daver informou ter
sido o seu mecenas construtor e velador: "... pareceo peramte
nos Mem Daver e comfesou que elle fizera e edificara a dita irmida per sua
devação em sua terra, pollo quall he obrigado da correger e repairar todallas
vezes que ho ouuer mester ”.
A equipa
visitadora chefiada por D. Jorge concluiu a vistoria à comenda no dia 25
inspeccionando a ermida de S. Sebastião, no termo da vila (na zona do actual
depósito de abastecimento de água). Verificou-se que o pequeno templo medieval
tinha uma só câmara (com 6,05 m de comprido por 4,40 m de largura), feita em
taipa, e que estava fortemente degradado e desprezado "a quall
he hua casa muito velha”. A única entrada era antecedida por uma galilé (que
media 4,40 m de comprido por 1,85 m de largo). No interior um altar improvisado,
também em taipa, exibia apenas "huua imagem pimtada em huua tavoa”.
O acervo
decorativo da igrejinha resumia-se a duas toalhas e cinco manteis, sendo que
destes apenas um estava no edifício, concretamente no altar, uma vez que os
outros tinham sido levados para a vila. Não se encontraram quaisquer outras
alfaias e não se conseguiu apurar a origem ou a data de construção da pequena
ermida. Apenas que era muito antiga, e que o concelho estava obrigado a
conservá-la sempre que fosse necessário, o que, segundo se soube, já tinha
sido feito algumas vezes.
Em resultado das
diversas anomalias identificadas ao longo da visitação da comenda espatária
alvaladense, D. Jorge de Lencastre e a sua equipa prescreveram várias
determinações, a cargo e expensas do Comendador D. João de Sousa, das quais
destacamos as seguintes correcções a providenciar na então igreja de Santa Maria
(actual igreja matriz):
- Mandam fazer um
sacrário no prazo de um ano, que não existia na Matriz. Uma lacuna grave
segundo os visitadores: "Achamos que na dita igreja nam ha sacrario, e he
muito perigosa cousa per os enfermos nam o aver, hii portamto mandamos e
encomendamos ao dito comendador que mande fazer o dito sacraàrio a maão ezquerda
do altar moor, como tem em Ferreira...".
Para além da
comenda de Alvalade, João de Sousa detinha também a comenda de Ferreira (do
Alentejo), e a comissão visitadora quis, provavelmente, com a referência ao
sacrário da Matriz de Ferreira, deixar bem explicito ao Comendador, que, não
só estava também obrigado a dotar a Matriz alvaladense de um sacrário, bem como
do modelo que devia ser adoptado, e o local exacto no altar-mor onde ele deveria
ser introduzido.
- Mandam comprar
e colocar na igreja umas obradeiras novas no prazo de seis meses "... de
marca acustumada e nam tam pequena como estas tem", uma vez que as
existentes, para além de não agradarem aos visitadores quanto ao modelo e
tamanho, eram velhas e já não fabricavam hóstias.
- Mandam comprar
uma caixa e âmbulas novas para os três Santos Óleos, também no prazo de seis
meses.
- Mandam fazer e
colocar armários na sacristia para acondicionar e guardar os ornamentos e
paramentos, e dessa forma evitar a sua degradação.
A igreja possuía
apenas uma arca, e na sacristia não existia um só armário ou móvel onde se
pudessem resguardar, em condições aceitáveis, os objectos e alfaias de pano da
igreja, facto que os visitadores entenderam contribuir para o estado degradado
em que se encontravam grande parte dos paramentos e ornamentos ("rotos e
velhos"). Ficou assente que no prazo máximo de um ano, o Comendador teria de
providenciar, para a sacristia, "os ditos almareos com suas fechaduras pera
se as ditas cousas todas guardarem como devem".
- Mandam fazer
três frontais de linho, pintados, a cumprir no prazo de seis meses.
No altar-mor
havia um velho frontal, oferecido pelo Comendador, e que ainda podia ser
utilizado. Nos altares secundários, em dias de festa recorria-se ao empréstimo
de peças do exterior, de uso corrente, para essa função, provavelmente idos de
alguma casa mais abastada, uma situação que desagradou e indignou os
visitadores: "achamos que na dita igreja avia tres alltares, os quaes nam
tinham fromtaes e se serviam de emprestado pollas feestas, o que parecia gramde
mingoa e desonestidade cubrirem se os ditos altares com panos que tornavam aos
umanos usos e portamto mandamos ao dito comemdador em virtude de obediemcia que
mande fazer tres fromtaes de pano de linho pimtados pera os ditos altares o que
cumprira demtro em seis meses".
- Mandam fazer
uma vestimenta de linho, para uso diário, e assim se pouparem os outros
paramentos que ainda eram usados mas que estavam bastante danificados,
prescrição que o Comendador deveria cumprir nos seis meses seguintes.
- Mandam comprar
e provir urgentemente a igreja de um livro com os rituais dos sacramentos, que a
igreja carecia, e cuja ordem deveria ser satisfeita no prazo de quatro meses
"vista a gramde necesidade que hii ha do decto livro".
- Mandam
encadernar imediatamente três códices litúrgicos: um domingal, um santal e um
saltério, que estavam desencadernados.
- Mandam fazer um
cruzeiro das Trevas novo, que o Comendador devia colocar na igreja até à
Quaresma seguinte, porque o único existente estava quebrado.
- Mandam fazer
uma cortina com o respectivo guarda-pó para o altar-mor, que acharam
desguarnecido, no prazo de um ano.
Do relatório
desta inspecção aqui analisado, que nos fornece informações e elementos de
grande interesse sobre Alvalade poucos meses depois de ter recebido foral,
destaca-se, pela negativa, o estado degradante em que se encontravam as ermidas
rurais e do termo da vila, algumas das quais em pré-ruína.
A ermida de S.
Pedro nem porta tinha "... soomente huua emtrada que lhe deixarão quamdo
fizeram as taipas ". Com excepção da ermida do Roxo todas as outras
pouco mais possuíam do que o santo a que estavam consagradas.
Em Santa Maria do
Roxo havia um livro litúrgico (um missal), um cálice e outras alfaias de apoio
às celebrações, mas, surpreendentemente, a igreja não tinha nenhum paramento.
A igreja de Santa
Maria (actual Matriz de Alvalade), o templo principal do conjunto visitado,
estava bem corregida, mas a dignidade dos actos de culto não estava assegurada:
não tinha sacrário; os paramentos e ornamentos eram deficitários e
encontravam-se em mau estado; a maior parte dos livros litúrgicos estavam
desencadernados, o que dificultaria certamente a sua utilização. Para esta
precaridade, também não serão alheias as dificuldades económicas sentidas na
época pelos párocos, já que, os paramentos, as alfaias decorativas e os livros
litúrgicos constituíam um pesado encargo para as paróquias. Por outro lado nem
sempre os comendadores cumpriam atempadamente com as suas obrigações, algumas
das quais pesavam fortemente nos seus orçamentos. Mesmo com esses
condicionalismos, e ainda relativamente à Matriz, não se entende a inexistência
de um livro com o ritual dos sacramentos (sem esses Ofícios como é que
celebrariam os baptismos e rezavam na encomendação dos defuntos?), ou ainda o
facto de as únicas obradeiras existentes já não funcionarem (se não podiam
fabricar as próprias hóstias para o culto quotidiano, como fariam para as
obter?).
Relativamente à
existência de vários códices desencadernados, a questão parece não surpreender o
Mestre D. Jorge na medida em que se fez acompanhar de um encadernador,
certamente por já conhecer o estado em que se encontravam grande parte dos
livros litúrgicos não só na comenda alvaladense, como na maior parte dos templos
da Ordem Santiaguista, e daí lavrar a seguinte prescrição no fim da visitação:
" mandamos que estes livros sejam logo emcadernados aa custa do comemdador
pello emcadernador que comnosco trazemos ".
Ainda na igreja
de Santa Maria, no seu acervo, destacam-se também, alguns elementos de grande
interesse que o relatório desta visitação nos fornece, como as pinturas murais
que estariam no altar secundário do lado da Epístola, que actualmente já não são
visíveis no templo. De resto, estas não seriam as únicas pinturas murais
existentes na actual igreja matriz alvaladense, uma vez que D. Jorge, através de
um provimento datado de 4 de Novembro de 1524, ordena que no baptistério se
pinte "... na parede o bautismo de Nosso Senhor asy como o vira pintado em
semelhantes capelas com Sam Joham e o Espiritu Samto segundo se pinta nas outras
igrejas o decto bautismo ", ordem que foi cumprida, confirmada pela
visitação de 1533, ao que se acrescentou outra pintura, em data indeterminada,
concretamente uma imagem de S. Sebastião, na parede oriental do mesmo
baptistério.
Também
interessante é o facto de a igreja possuir uma custódia de prata, oferecida pelo
rei D. Manuel I " por a prata que foi tomada a igreja ", em altura e por
motivos que a visitação não esclarece.
As prescrições e
ordens lavradas no final da vistoria de 1510 não irão corrigir a totalidade das
carências detectadas. Contudo, verifica-se que a Ordem intensifica a sua
fiscalização sobre a comenda de Alvalade a partir desta visitação até ao final
do Mestrado de D. Jorge, quer sobre os aspectos relacionados com a vida
litúrgica e assistência religiosa da paróquia, como da conservação dos templos e
as respectivas alfaias. Prova disso são as sucessivas ordens e provisões
espatárias lavradas em anos e décadas subsequentes.
Por exemplo, a 12
de Janeiro de 1516, provavelmente na sequência de uma queixa, ou relatório de um
seu emissário sobre o comportamento de alguns moradores de Alvalade, a Ordem
escreve ao prior da matriz: "... fazemos saber a vos prior da nossa villa de
Alvalade que nos somos emformados que muitos homees e pesoas quando veem aa
missa aos domingos e festas nam contentes de estarem no corpo da igreja se metem
na capela (baptistério) das grades pera demtro e estam hi fazemdo muitas
torvações com suas pallrras e praticas ...", situação que parecia não
incomodar o pároco, o que seria pouco abonatório para o seu zelo pastoral, mas
que a Ordem estava determinada a rectificar, a bem da dignidade e elevação com
que deveriam ser celebrados os ofícios "... e queremdo nos evitar tais cousas
que sam pouco do serviço de Deus vos mandamos que aas ditas missas nom
comsintães estar nenhuua pesoa das ditas grades pera demtro fazemdo os
semelhantes pallratorios e murmurações e queremdo la estar os amoestay que se
sayam fora das grades a ouvir sua missa ".
A 4 de Novembro
de 1524 um emissário da Ordem constata, entre outras deficiências, que a
custódia da Matriz continuava com os vidros do hostiário quebrados e o pé
descolado, apesar de tempos antes já ter sido pedido à câmara que providenciasse
o restauro da alfaia. A Ordem volta a mandar reparar a custódia, e a relembrar
a câmara das suas obrigações na conservação dos objectos de prata. Mas, a 3 de
Dezembro de 1527, ou seja três anos depois, o assunto não tinha tido ainda
qualquer desenvolvimento e a custódia oferecida pelo rei D. Manuel I continuava
por reparar. Verificando que os prazos concedidos à câmara para o arranjo da
peça tinham sido já ultrapassados, a Ordem manda que um seu emissário verifique
se a alfaia está ou não consertada, e caso continue por cumprir, aplique à
câmara a coima pré-determinada de 500 reais que deverão ser entregues à
fábrica da igreja. Para que a alfaia não fique ainda por reparar, a Ordem
prescreve que a custódia seja consertada em Setúbal, ordenando ao seu visitador
que, no seu regresso a leve com ele "porque qua se poderão as ditas cousas
milhor fazer mandamos ao dito provedor que traga a dita custodia pera aqua
coreger ...". Para além do arranjo da peça a Ordem manda que se adquira
também uma caixa de couro, à sua medida, para acondicionar a custódia. Tanto o
restauro como a caixa correrão integralmente por conta da câmara "...os
juizes e ofeciaes lhe darão pera isso o dinheiro que pouco mais ou menos podera
custar ".
Na mesma carta de
provimento, os espatários ordenam à câmara que num prazo de dois anos faça uma
escada para o campanário da igreja matriz "...a quall farão omde ao dito
prouedor e a eles parecer bem pera milhor serviço, asy cumprirão sob pena de
dous mil reais pera o nosso qonvento de Santiago". Contudo, passados os
dois anos concedidos, o campanário continuava sem escada, situação que se
manteve, pelo menos até 1533, altura em que a Ordem volta a insistir na mesma
necessidade, ordenando novamente à câmara "...e asy mande fazer hua escada da
bamda de fora com hu portall de servimtia de demtro da igreja asy como lhe demos
menção de como avia de ser ".
A 12 de Agosto de
1525 a Ordem responde favoravelmente a um pedido da câmara de Alvalade, para que
esta crie e aplique uma nova taxa sobre o povo, destinada exclusivamente a obter
receita suficiente para custear umas obras de que a ermida de S. Pedro carecia:
"... e foy nos pedido polos juizes e ofeciães que porquamto eles nom se
estrovão a costranger o povo pera aver de coreger a dita irmida e farya bem
pouco custo ouuesemos por que eles deitasem taixa polo decto povo pero o dito
coregimento da dita irmida e por nos parecer asy bem e seruiço de Deus per este
damos licença aos ditos juizes e oficiães pera que eles posam lançar a dita
taixa pero o coregimento da dita irmida...". Não sabemos que obras
terão sido feitas, se é que a ermida foi corregida. Sabemos porém que, passados
oito anos, concretamente no decurso da visitação de 1533, os inspectores
verificaram que o templo entretanto tinha desabado e sido novamente construído,
apresentando agora dimensões ligeiramente inferiores à mesma ermida
inspeccionada por D. Jorge (agora com 5.50 m de comprimento por 3.30 m de
largura, ao contrário dos 6.60 m de comprimento por 3.85 m de largura medidos na
visitação de 1510). Tal como em 1510 a ermida continuava sem porta. Não por
falta de meios, uma vez que teriam sido entregues duzentos reais em dinheiro a
um tal João Moniz para que fizesse e colocasse uma porta na ermida. Porém,
volvidos "tres ou quatro añnos", a porta não foi feita, circunstância que
faz com que a Ordem determine que se procure o referido indivíduo, para que este
devolva o dinheiro recebido aos juízes e escrivães da câmara, e que seja esta a
providenciar, definitivamente, a porta para a ermida, sob pena de ela ser feita
à custa dos próprios juízes e vereadores do concelho.
Na mesma carta de
provimento (de 1525) constata-se também que o sacrário da igreja matriz
continuava a ser fonte de preocupação para a Ordem, uma vez que lhe tinham sido
levadas as portas a Lisboa para dourar (a expensas do agora comendador Cristóvão
Correia), mas passados três anos ainda não tinham regressado a Alvalade, facto
que deixou o provedor espatário desagradado, considerando e prescrevendo este
que " ... ho decto sacraryo estaa asy mal sem portas mandamos ao recebedor da
fabrica que sob pena de mil reais pera a dita fabrica tenha cuidado de
mandar pelas ditas portas e poolas em o dito sacrario de provicação deste a huu
ano".
Determina a Ordem
também que se façam e coloquem, urgentemente, portas novas na entrada principal
da matriz, especificando que " as ditas portas principais serão tamanhas como
o arco, em sua grandura necesaria e muito boas ". Prescreve ainda que se
aproveitem algumas madeiras da porta principal a substituir, e com elas se faça
uma porta "nova" para a entrada lateral sul da igreja.
A 16 de Março de
1529 a Ordem manda demolir a velhinha ermida de S. Sebastião, ordenando que se
levante um novo templo em sua substituição, porventura entendendo que o estado
de degradação em que o edifício se encontrava já não permitia ou não seria
viável fazer a sua conservação "... a irmida de Sam Sebastião estaa
daneficada e ha mester coregida deribamdoa e tornamdoa a fazer e por que o povo
he a ella obrigado mandamos aos juizes e oficiaes que demtro de hu añno a mamdem
coreger ha custa do concelho sob pena de quinhentos reais...". A
disposição dos espatários é acatada, mas, passados quatro anos o templo estava
longe de estar concluído. Com um programa construtivo para uma ermida diferente
e maior, certamente terão surgido dificuldades de financiamento, e de
mão-de-obra especializada, factores que, eventualmente, terão contribuído para o
ritmo lento da construção, que na visitação de 1533 apresentava apenas a
estrutura da capela-mor, abobadada, com o altar-mor ainda por realizar. Do
corpo da igreja apenas estavam feitos os alicerces (de pedra e barro).
Curiosamente, apesar de muito faltar para o templo ficar totalmente construído,
já apresentava a imagem do santo na inacabada capela-mor " ... e tem hua
imagem de Sam Sebastiam nova muito boa de vulto posta em hua culuna na quall
estão tres ramos e é pimtada de verde e em hu dos ramos da parte dereyta esta hu
escudo dourado com hu abito de Santiago no meo". A obra arrastava-se, o
tempo passava, e a Ordem, apesar das condições precárias que o edifício em
construção oferecia, não quis privar os moradores do concelho alvaladense de
poderem continuar a venerar o "santo mártir"...
Pese embora com
algumas vicissitudes e delongas no cumprimento das determinações e ordens dos
espatários, registaram-se melhoramentos significativos nos edifícios
religiosos alvaladenses ao longo da primeira metade do século 16. Mas não só.
Durante o Mestrado de D. Jorge, especialmente depois de 1510, os templos viram
também os seus espólios melhorados e aumentados ao nível dos paramentos, dos
objectos de função meramente decorativa e das alfaias essenciais para a
celebração do culto divino. Principalmente a igreja matriz que se viu
melhorada nas alfaias de prata, em boas ornamentações, e em vestiduras de bons
tecidos, alguns oriundos do norte de África e da Índia. Benefícios importantes
para os quais terá contribuído o novo estatuto de município que Alvalade agora
detinha, e que a Ordem Santiaguista não quis deixar de ter em consideração.
(1)
D. Jorge de Lencastre nasceu em Abrantes a 21 de Agosto de 1481, e era filho
bastardo do rei D. João II e de D. Ana Mendonça (que foi dama da princesa D.
Joana), filha de Nuno de Mendonça, aposentador-mor do rei D. Afonso V, e de D.
Leonor da Silva.
Após a morte
trágica do infante D. Afonso, seu único filho legítimo, D. João II tudo fez
para habilitar D. Jorge ao trono. Entre 1491 e 1494 concedeu-lhe os mestrados
das Ordens de Avis e Santiago da Espada, o ducado de Coimbra e os senhorios de
Montemor-o-Velho e Torres Novas. Porém, a pressão e insistência da rainha D.
Leonor que pretendia ver o seu irmão D. Manuel no trono (e que pouca simpatia
nutria por D. Jorge), conjugadas com as grandes perturbações provocadas pela
doença nos últimos tempos de vida do monarca, contribuíram para que D. João II
nomeasse, no seu testamento de 1495, D. Manuel, duque de Beja, seu sucessor.
D. Jorge de
Lencastre faleceu a 22 de Julho de 1550, no castelo de Palmela.
Luis Pedro Ramos
Agradecimentos:
Ao Dr. António
Martins Quaresma, Historiador e destacado membro do Departamento do Património
Histórico e Artístico da Diocese de Beja, pelos esclarecimentos sobre os
livros litúrgicos, e à Biblioteca Municipal de Grândola pela cedência da foto
de D. Jorge. |