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A “ visita “ do
Duque da Terceira
Numa
fase que veio a ser decisiva na guerra civil que opôs liberais e
absolutistas e que colocou o país a ferro e fogo, D. António José de Sousa
Manuel e Meneses Severim de Noronha, 7º Conde de Vila Flor, que então já
recebera o título de 1º Duque da Terceira, assume a missão de desembarcar
no Algarve com um contingente de 2500 homens, o que veio a suceder perto
de Monte Gordo, no dia 24 de Junho de 1833. O objectivo era tentar
uma manobra de diversão que pudesse fazer com que algumas tropas
miguelistas fossem atraídas ao sul, abrindo assim outra frente de combate,
e dessa estratégia, pudesse resultar algum alívio na forte pressão
existente sobre o Porto, na altura cercado pelo exército realista. O
Verão de 1833 estava a ser complicado para os liberais, e a situação
pareceu, a dada altura, bastante adversa. Divergências políticas entre as
facções dos Duques de Palmela e Saldanha, deserções maciças, fome, cólera,
revoltas, insubordinações, hesitações nos apoios estrangeiros, resultavam
num cenário que apontava para um desfecho pouco favorável aos liberais.
As últimas esperanças de uma reviravolta na situação, estavam assim
centradas no resultado desta missão.
Ao
desembarcar no Algarve o Duque da Terceira não encontra resistência, e
rápidamente tomou Faro e Olhão. Na mesma ocasião a esquadra comandada pelo
Almirante Charles Napier - um mercenário ao serviço da causa liberal -,
que se deslocara do Porto igualmente para o sul, enfrenta a armada
realista, derrotando-a com alguma facilidade perto do Cabo de S. Vicente,
e apodera-se da maior parte dos navios de guerra miguelistas. Conquistado
o Algarve, que significaria o primeiro grande sucesso das hostes liberais,
o Duque da Terceira decide-se por uma manobra arrojada e destemida,
subindo pelo litoral com a sua coluna em direcção a Lisboa, apoiado ao
longo da costa pela armada de Napier, e em poucos dias atravessa o
Alentejo sem qualquer oposição digna de registo.
Depois
de ter estado em Messejana a 17 de Julho, no dia seguinte a coluna é
avistada às portas de Alvalade, por volta do meio dia. Uma grande
mancha de poeira no horizonte, indicava a aproximação de um grupo
numeroso, de imediato avistado pelo sineiro da Matriz, que rapidamente
desceu a escadaria do campanário e correu pelas ruas, assustado, a dar o
alarme. Era o Duque da Terceira e a sua força militar.
Atravessado o Sado, segundo alguns registos pelos lados da Amoreira, o
contingente imobilizou-se nos olivais da Carrasca e de S. Sebastião.
A Infantaria rapidamente tomou a Fonte Branca de assalto, bem como
os poços de Nossa Senhora e da horta do Pego Verde, enquanto que os
cavalos foram levados a dessedentar-se no Sado e na ribeira de Campilhas.
Pouco tempo depois, ao som dos clarins, o Duque da Terceira e parte do seu
estado maior entrava em Alvalade, pela Rua das Areias (actual Rua Duque da
Terceira), escoltados por um esquadrão de Cavalaria e uma força de
Caçadores destacadas da guarnição. Num ápice chegaram aos Paços do
Concelho. O Duque e alguns oficiais subiram ao salão nobre, situado no
primeiro andar, fizeram tocar os sinos da câmara exigindo a presença
imediata da vereação camarária e das restantes autoridades locais (todas
miguelistas), que rapidamente compareceram. O povo, expectante e
algo receoso, juntou-se na praça (D. Manuel I) em grande número. Não
demorou que as autoridades administrativas alvaladenses renunciassem a
fidelidade a D. Miguel, e aclamassem D. Maria II também como sua rainha,
lavrando disso a acta respectiva. Naquele cenário e com as forças
presentes, seria pouco aconselhável tentar esgrimir argumentos, defender
posições, que pudessem de alguma forma justificar a vontade política
dos poderes locais. A guerra civil era também um pouco isto...
Uma
vez cumprida a missão e feita a vontade ao Duque, soam novamente os
clarins, e as tropas retiram da vila pela Rua de Lisboa, retomando a
marcha que só iria terminar na capital.
Porém,
em 30 de Agosto - ou seja mês e meio depois -, a vereação
volta a reunir, desta vez a pedido do corregedor interino da Comarca de
Beja, Diogo José Vieira de Noronha, acompanhado do sargento-mor de
ordenanças da mesma cidade, vindos propositadamente a Alvalade, de que
resultaria a renuncia do auto declarativo de 18 de Julho, com a
justificação de que só aclamaram D. Maria II porque a isso "...tinham
sido obrigados por uma força rebelde que aqui passara", e
voltam a aclamar D. Miguel como seu rei legítimo.
Porém,
a vitória militar dos Liberais na Guerra Civil de 1832/34 provocaria nova
posição do concelho, e em 11 de Julho de 1834 as instituições alvaladenses
voltam a reconhecer e a aclamar a rainha D. Maria II, como sua soberana.
Para
assinalar a passagem do Duque da Terceira por Alvalade, a Junta de
Freguesia apresentou, em Santiago do Cacém, na assembleia municipal, uma
proposta de substituição do topónimo “ Rua das Areias ” pelo
topónimo “ Rua Duque da Terceira “, aprovada por unanimidade
no dia 1 de Março de 1925.
Luis Pedro Ramos
(Fevereiro
de 2003)
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