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Memórias de tempos idos…

55Desde os primórdios que Alvalade tem na agricultura a sua principal actividade económica. Ao longo de grande parte do século passado, os alvaladenses tinham nos meses de inverno os tempos mais difíceis de cada ano, onde quase não havia trabalho e a maioria da população vivia com grandes dificuldades. Em 1940, por exemplo, estiveram sem trabalho e sem qualquer rendimento mais de 600 trabalhadores agrícolas, durante mais de 2 meses. De acordo com vários testemunhos da época, foram 8 semanas verdadeiramente trágicas onde a fome deixou as suas marcas bem visíveis na população alvaladense. A norte da freguesia, revoltados com a situação, os trabalhadores rurais provocaram vários motins, que resultariam na detenção de mais de 150 pessoas. O trabalho agrícola, quando existia, era normalmente mal remunerado. Pela década de trinta e inícios dos anos quarenta do século passado, a remuneração diária dos trabalhos rurais praticada na freguesia era a seguinte:

Homens

– Sementeira: 7$00 a 8$00 por dia

– Mondar: 6$00 a 7$00 por dia

– Ceifar: 12$00 a 14$00 por dia

– Debulha: 10$00 a 11$00 por dia

– Cava da vinha: 9$$00 a 10$00 por dia

– Podar: 8$00 a 9$00 por dia

– Tratamentos (químicos): 7$00 a 8$00 por dia

– Vindima: 7$00 a 8$00 por dia

– Limpeza de olivais: 7$00 a 8$00 por dia

– Limpeza de montados: 8$00 a 9$00 por dia

– Tirar cortiça: 12$00 a 14$00 por dia

Mulheres

– Mondar: 3$00 a 4$50 por dia

– Ceifar: 5$00 a 7$00 por dia

– Apanhar azeitona: 3$00 a 3$50 por dia

Entre o dia 1 de Setembro e 31 de Março, começava-se a trabalhar com uma hora de sol, havia um intervalo ao meio-dia para o “jantar” e o dia de trabalho terminava ao sol posto. No Verão, o início do dia de trabalho começava ao nascer do sol, às 9 horas havia uma hora para o “almoço”, ao meio-dia 2 horas de intervalo para o “jantar” e o dia de trabalho terminava com meia hora de sol. Durante muitas décadas foi este o “horário” de trabalho em Alvalade nas tarefas rurais.

Quem hoje vê a vila de Alvalade não consegue sequer imaginar como eram a maioria das habitações, em tempos não muito distantes. Geralmente de um só piso, construídas em taipa e com chão em terra batida, ainda que também as houvesse em tijolo ou cimento. Grande parte delas comunicavam para o exterior apenas através de uma porta de postigo e não tinham janelas, que encareciam a sua construção e não estavam ao alcance de todos os habitantes. Ter uma ou duas janelas nesses tempos, era um “luxo”… Caiadas por dentro e por fora, a maioria das habitações alvaladenses tinham apenas duas divisões, havendo também algumas com três e muitas outras apenas só com uma.

Nas moradas de duas divisões, a primeira ou a de entrada, servia de cozinha, sala de jantar e sala de estar, e a outra era o quarto de cama, por vezes também usada como dispensa. As “casas de banho” não existiam e a maioria da população só as iria conhecer alguns anos após a Revolução dos Cravos.

A alimentação por esses tempos era constituída por três refeições: Almoço, jantar e ceia. O almoço era normalmente entre as 8 e as 9 horas e consistia, por exemplo, numa sopa de toucinho, ou numa açorda de alho e coentros, com ou sem condutos. Ou apenas café a pão, nos casos  de maior carência económica. O jantar, refeição feita entre o meio dia e a uma hora da tarde, era normalmente uma sopa de grão ou de feijão, umas vezes com arroz outras com massa. A ceia, entre as oito e as nove horas da noite, era uma refeição semelhante ao jantar, ou por vezes apenas pão com conduto, como por exemplo uma sardinha assada, azeitonas ou queijo. Em dias festivos, e sempre que era possível, o repasto era melhorado com um cozido à portuguesa com carne de porco ou um guisado de borrego. Tempos difíceis não muito distantes que ainda perduram na memória das gerações mais idosas…

_LPR

8 Respostas a Memórias de tempos idos…

  1. Vasco Maldonado Passanha Responder

    24 de Outubro de 2014 em 12:37

    Não sei que porque temos que chorar o passado, quando na realidade temos que viver o presente e construir o futuro. Concordo que os ordenados eram muito baixos, mas tem que se olhar que estavam conforme o valor do custo de vida, temos que tomar em consideração por quanto se vendia um Kg de trigo ou quanto custava um litro de gasóleo.
    Para falar de valores referentes aos anos trinta tem que se fazer a correcção para valores em que se toma em consideração vários factores, pois de outra forma o artigo não é objectivo.
    Recordo o ano da fome em todo o Alentejo, em que alguns empresários agrícolas mantiveram as portas abertas, para dar géneros alimentícios a quem estava numa situação tão precária.
    Gostaria também de dizer que o ano da fome, foi um Inverno com chuva seguida que arrasou as culturas e onde houve grandes perdas nas explorações agrícolas.

  2. Vasco Maldonado Passanha Responder

    24 de Outubro de 2014 em 12:43

    Não entendo o que quer dizer que o meu comentário aguarda moderação!…
    Será que dizer a verdade, ofende quem fez o artigo que estou a comentar!…

    • admin Responder

      24 de Outubro de 2014 em 14:43

      Tem a ver com a gestão da página. Não são permitidos comentários com linguagem obscena, ofensiva, etc. Por isso os comentários não ficam on-line imediatamente. Nada mais do que isso.
      _LPR

  3. Eufrásia Veríssimo Responder

    24 de Outubro de 2014 em 21:38

    O tempo da fome no Alentejo não foi só um Inverno com chuva seguida, foram muitos e muitos Invernos… O Sr. D. Vasco Passanha fala assim porque, enquanto muitos trabalhadores rurais de Alvalade passavam fome e carências de toda a ordem, a ele e à sua família, nunca lhes faltou nada, creio eu.
    É verdade que devemos viver o presente e construir o futuro, mas a quem viveu este passado é muito difícil esquecer.

  4. Manuel F. Neves (Lito) Responder

    25 de Outubro de 2014 em 10:42

    Ao D. Vasco Passanha, devo relembrar que fome no Alentejo, foram décadas e não um Inverno!

    E será que hoje, passados tantos anos, não continuamos com aglomerados de fome, enquanto o D. Vasco e família, felizmente, não sabem o que isso é?

    É preciso viver o presente para construir o futuro, mas, nunca, esquecendo o passado.

  5. Vasco Maldonado Passanha Responder

    31 de Outubro de 2014 em 11:50

    Tem toda a razão Portugal foi até aos anos 50 um um país subdesenvolvido. Ninguém escolheu nascer rico ou pobre é uma fatalidade ou sorte que nada teve a ver com as nossas escolhas.
    Uma vez que todas as respostas tocam na minha família, quero esclarecer que a miséria somente termina com o desenvolvimento e emprego.
    A minha Família desde o principio do século que concorremos para acabar com esse flagelo criando riqueza e emprego.
    Somente para enumerar algumas iniciativas:

    – Eletrificação do sul de Portugal (Aliança Eletrica do Sul)
    – Estaleiros de São Jacinto (Construção naval)
    – Empresa de Pesca de Aveiro (Pesca e seca de bacalhau e conservas)
    – Noudar (Azeitona recheada em Moura)
    – Eca (Concentrados de Tomate em Alvalade)
    – Consol (Concentrados de Tomate Canhestros)
    – Taifas Indústria e Comércio de Azeite S.A. (Azeites em Ferreira do Alentejo)

    Pelos testemunhos de várias pessoas de Alvalade, com a ECA Fundada por mim com capitais maioritários da Família Passanha, Alvalade teve a “Idade de Ouro”.
    Quero notar de que além do emprego os nossos empregados tiveram as seguintes benesses:

    – Uma cantina com aquecimento central, refeições subsidiadas pele empresa,
    – Subsídio para a cantina da escola de Alvalade alimentar os alunos,
    – Pagamento de transporte para os filhos dos empregados poderem frequentar o liceu em Santiago
    – Um mini-supermercado com produtos a preço de custo com renda e empregados gratis e um pronto a vestir.
    – Um terreno para fazer uma urbanização com projecto aprovado.
    – Empréstimos e ajudas de equipamentos para casa própria,
    – Os pequenos Ceareiros de tomate empréstimos bancários avalizados por nós, adubos e produtos químicos a crédito e assistência técnica para que tivessem bons resultados -são testemunhas de tudo isto os inúmeros empregados e ceareiros que singraram na vida.
    Finalmente de futuro não vou comentar mais nada para este assunto.

    Creio que a destruição deste bem estar que havia em Alvalade, foi como é do conhecimento geral, feito por quem aplicou e seguiu a ideologia do PC.
    Finalmente não me queixo do passado, apesar de ter perdido tudo, porque procurei viver o presente com esperança no futuro.
    Para terminar quero deixar claro que no caso da ECA já perdoei há muito tempo a todos pois tratou-se de um problema de falta de cultura de que não tiveram culpa.

  6. admin Responder

    31 de Outubro de 2014 em 16:09

    Na qualidade de filho de uma ex-trabalhadora da ECA confirmo que fiz boa parte do ensino secundário em Santiago cujo passe da rodoviária foi suportado pela ECA, e a empresa tinha também uma creche/infantário para os filhos dos funcionários. No Natal a empresa organizava uma grande festa para os trabalhadores e famílias, e eram distribuídas/oferecidas prendas.
    Na altura não acredito que houvessem muitas empresas com esta filosofia e condições. Ainda hoje rareiam.
    Quanto ao período quente da ocupação, os alvaladenses mais esclarecidos e que acompanharam a situação de perto sabem o que lá aconteceu.
    _LPR

  7. Francisco Lobo de Vasconcellos Responder

    4 de Novembro de 2014 em 12:27

    O passado é memória, é história, são ensinamentos.
    Enquanto se continuar agarrado a preconceitos, a julgamentos sumários, a juízos pré definidos, não se consegue andar para a frente e progredir.
    E isto aplica-se ao pré 25 de Abril ou pós 25 de Abril….injustiças, arbitrariedades, visões distorcidas.
    Não se consegue progredir se continuarmos sempre a olhar para trás, para 40 ou 50 anos atrás.
    Os tempos do Estado Novo, graças a Deus, não voltam, mas ainda existem muitos que gostariam de voltar ao período pós revolucionário.
    Pois nem um nem outro foram benéficos para o País e para a nossa região!

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