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O Largo do Vasco

Já vai distante o tempo em que lhe chamavam «o largo do café do Chico», enquanto outros, mais velhos, conheceram-no ainda como «o largo do Vasco», o topónimo mais antigo e que ainda sobrevive. O nome foi-lhe ‘emprestado’ por Vasco José da Silva, comerciante (mercearia, talho, café…), um dos habitantes mais carismáticos de Alvalade no século XX e morador no edifício mais antigo do largo, que apesar das rugas do tempo ainda recorda a intensa vida e o bulício que conheceu. Nos idos anos 30 do século passado, a par da sua actividade comercial, Vasco Silva desempenhava funções de tesoureiro no executivo da junta de freguesia de Alvalade. Lamentava-se, na altura, dos magros rendimentos da autarquia e do fraco apoio financeiro que recebia dos paços do concelho de Santiago, e que mesmo esse nem sempre era certo… Por isso, alguns projectos da autarquia alvaladense aguardavam, na época, cabimento orçamental. Ajardinar e arborizar o largo da República, e a construção de um chafariz público no mesmo espaço com água canalizada oriunda do Pombal eram, na altura, algumas das obras principais que Vasco Silva ambicionava para valorizar a vila mas faltava-lhe o dinheiro necessário para a sua concretização como declarou, em entrevista ao jornal «Ala Esquerda», em 30 de Março de 1933. Um dos seus filhos, António da Silva, acabaria por seguir-lhe as pisadas de autarca, mas em Lisboa, fixando-se na rua dos Correeiros onde residiu sempre. Eleito pelo Partido Socialista uns bons anos depois do 25 de Abril, o Sr. Silva, como era conhecido, foi presidente, durante vários mandatos, da junta de freguesia de S. Nicolau, que inclui as conhecidas rua Augusta, rua da Prata e rua do Ouro, entre outras. Do largo do Vasco para a presidência de uma das freguesias mais emblemáticas da Baixa Pombalina de Lisboa, António da Silva, nunca renegou e honrou sempre as suas raízes alvaladenses…

O largo, que tirava proveito da ladeira do posto ou rua 23 de Agosto de 1914, uma das principais entradas da vila, foi um dos espaços mais movimentados de Alvalade em grande parte do século XX, pelos cafés e outras casas comerciais que ali se foram fixando ao longo do tempo. Pelo restaurante do Sr. Manuel Pereira e da D. Júlia Ramusga, afamado e procurado pela boa comida, passaram alguns dos maiores e mais badalados artistas nacionais, à época, que actuaram em Alvalade pela mão de José Raposo Nobre (também ele morador no largo do Vasco), na altura um dos maiores empresários do mundo do espectáculo na região e dinamizador do Cinema Alvalade. Em certas épocas, o largo do Vasco chegou a ser mais procurado e frequentado do que a ‘icónica’ praça D. Manuel I, o espaço público mais importante da vila, também conhecida, a partir da segunda metade do século passado, como o «largo da Casa do Povo». Ainda hoje, quer um quer outro, são espaços de memória importantes do centro histórico e onde também se construiu a identidade de Alvalade…

_LPR

3 Respostas a O Largo do Vasco

  1. Maria Dores Martins C Amado Responder

    2 de Dezembro de 2017 em 16:22

    Tudo o que acabei de ler são as boas recordações do tempo do “Largo do café do Chico.” Recordo-me que o telefone dele era o número 8. Era o café do Chico e os outros. Os três funcionavam e davam vida às lojas no mesmo largo. Alvalade viveu, nesse tempo, dias de alegria e conforto económico… Foi também o tempo da “hidráulica…

  2. Zé do Monte Responder

    16 de Abril de 2018 em 23:30

    Largo do Vasco. Se me lembro!…
    Na esquina com a Ladeira do Posto existiu o café “Orquidia” de que fora proprietário o Sr.Arménio que explorava, também, uma loja de fazendas na Rua Duque de Terceira (no prédio de D.Augusta).
    No lado oposto residiu o Sr.Baião, farmacêutico, pessoa de requintado tratamento e que sempre mereceu justificada estima e consideração de toda a gente. Na outra esquina, com a rua Duque de Terceira, existia a oficina de albardeiro de que era proprietário o Sr.Alfredo(?) Maximino, fazedor de albardas e de outros atavios destinados às cavalgaduras da região.
    Era no Largo do Vasco que se faziam as “praças” para a contratação dos ceifeiros que ali, sentados nos lancis, esperavam a chegada dos lavradores ou dos seus mandatários, os feitores, que os ajustavam para uns dias de ceifa, consertavam o preço da jorna e de outras condições contratuais, entre elas: se era ou não “a de comer”e “de albergaria”. O contratador déspota, abatia na jorna, se se desse o caso optativo de acertarem as condições de trabalho, “a de comer” e “de albergaria”.
    Lembro-me que os jornaleiros era definidos, jocosamente, por “ratinhos”, os oriundos das Beiras e por “algarvios” os que provinham do Algarve. Os ceifeiros alentejanos, os locais, eram os “homens”, muito embora, quanto ao trabalho braçal, não fossem diferenciados.
    Era a triste realidade do tempo negro da nossa história, tempo da miséria, do tempo do achincalhamento do trabalhador rural e do desprezo, penosamente e despudoradamente humilhado.

  3. admin Responder

    17 de Abril de 2018 em 9:31

    Excelente apontamento sobre o ‘Largo do Vasco’, Sr. Zé! Vou coligir estas memórias, que conhecia apenas parcialmente. Muito obrigado. LPR

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