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A Pedra da Aleluia

alvaladeTodos os anos, no sábado de Aleluia, por volta das 10 horas, o sineiro da matriz tocava nos sinos os 3 repiques festivos, e o tesoureiro abria a porta principal. A essa hora, do lado de fora já se encontrava um grupo de 20 a 30 de rapazes, de 8 a 14 anos, cada um deles trazendo ao pescoço, desde o chocalhão grande dos bois até à pequena campainha ou esquila, como dizem, das cabras. Até alguns apareciam com as guizeiras dos cavalos. Aberta a porta, tudo aquilo soava freneticamente, davam duas voltas ao redor da igreja, e percorriam toda a Vila, com o seu estranho concerto, numa correria doida. Acabado isto, voltavam à igreja e o tesoureiro marcava-lhes o itinerário pelos Montes, acompanhando a pedra da Aleluia, que era conduzida por um simplório que caía em se encarregar de serviço tão pesado. A sua missão consistia em carregar com uma pedra dos seus 10 a 15 quilos envolta num pano e convenientemente atada para evitar os desacatos, e entregá-la no Monte A ou B, aonde lhe dariam melhadura. O revolto e sonante grupo lá ia, em acelerado, percorrer a primeira secção, dos seus 3 quilómetros, que tal era o seu percurso. Chegados ao Monte procurado, os lavradores vinham ao terreiro recebê-los, com alegre e bondoso semblante. Todos recebiam o seu convite em bolos, queijos, leite, pão, amêndoas ou dinheiro. Mas a pedra, é que nem sempre ficava no primeiro local. O proprietário não querendo ser sozinho na espórtula das amêndoas ao tesoureiro da igreja endossava-a a outro, de outro Monte, e lá ia o grupo atroador fazer nova visita, e muita sorte tinha quando o endosso ficava por ali. Na volta, quase sempre ao cair da tarde, apresentavam-se suados, cobertos de pó e cansados de tanto andar. O da pedra, mesmo simplório, é que quase sempre resmungava mais: “malandros… tenho os ombros esfolados…”. O troco era certo: “…não fosses parvo”.

_Apontamentos históricos do Padre Jorge de Oliveira (1865/1957), pároco de Alvalade entre 1908 e 1936, para uma monografia que não chegou a publicar. 

Uma Resposta a A Pedra da Aleluia

  1. José Raposo Nobre Responder

    4 de Abril de 2014 em 15:05

    Esta história muito bem contada, como todas, pelo Padre Jorge de Oliveira, lembra-me o Snr. Ilidio Pereira Martins, pai da Carolina e avô do Engº Ilidio e da Mariazinha, que gostava muito de na brincadeira fazer partidas a amigos. Vinha aqui todos os meses um caixeiro viajante da firma Luis André Rodrigues, de Grândola, que vendia mercearias, nesse tempo vinha de comboio. Um dia o Snr. Ilidio Martins pediu-lhe que levasse uma encomenda para um amigo que tinha em Grândola, mas com cuidado porque era frágil. O caixeiro viajante, que se chamava Nobre, levou o pacote até à Estação, l Klm, com todo o cuidado, em Grândola andou carregado outro Klm, até a casa do tal amigo, que não esperando a encomenda logo abriu a caixa, que continha apenas pedras, estavamos no Carnaval e ninguém levou a mal.
    JRN

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