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A licença de isqueiro

licencadesisqueiroPela metade da década de 60 do século passado, um jovem alvaladense precisado do seu bilhete de identidade pessoal desloca-se a Santiago do Cacém (ou Santiago de Cães Cem, como muitos alvaladenses à época chamavam à sede concelhia) para tratar do documento.

Nas proximidades da antiga conservatória do Registo Civil, decide fumar um cigarro, mas, mal acende o isqueiro, surge-lhe um guarda da GNR que o aborda e exige que lhe mostre a licença de uso do isqueiro. O jovem, não se mostrando intimidado, responde que não possui a dita licença (obrigatória entre 1937 e 1970 para o uso de isqueiros e outros tipos de acendedores em espaço público, ao que se conta para salvaguardar a viabilidade económica da Fosforeira Nacional, propriedade dos Caeiro da Mata, uma família muito próxima de Salazar), não restando ao guarda que não fosse informá-lo que assim sendo teria que o multar em 150$00. “Não pago”, respondeu o rapazola. Não pagas, vais preso”, disse-lhe o guarda surpreendido com a resposta.

Em tom desafiador, o jovem não desarma: “Preso? Isso é que era bom”. “Estás a gozar…vamos já para o posto”, decide o agente. E lá foram. Chegados ao posto da GNR, o desafiante foi levado à presença do comandante. Num tom agreste e com algumas ameaças pelo meio, o comandante da GNR local pergunta ao jovem alvaladense por que razão insistia ele na frase “isso é que era bom” perante a possibilidade de ser preso por se recusar a pagar a multa. “Já tenho embarque marcado para África para o dia 29 de Abril. Se me prenderem, não vou”, esclareceu. O Comandante, sem alternativa e frustrado por não cobrar a multa nem poder prender o rapazola, remata: “Já me lixaste…desaparece”.

                                                                                                                                           

 

_José do Rosário

Uma Resposta a A licença de isqueiro

  1. José Raposo Nobre Responder

    3 de Julho de 2013 em 18:34

    A licença de isqueiro, uma “ideia genial” do regime salazarista, era justificada pelo motivo da Fosforeira Portuguesa ser propriedade do Estado, com os isqueiros vendiam-se menos caixas de fósforos. Havia outra licença, esta camarária, para que as carroças pudessem circular. Quando estavamos na Comissão Administrativa da Câmara, após o 25 de Abril, acabámos com esta incongruência, medida que as outras Câmaras do Distrito também seguiram.
    JRN

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