Alvalade: Benditas terras de pão

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Alvalade CampilhasPara manter inalterável e intangível o bloco concelhio, necessário se torna que as sedes, para a equitativa divisão dos benefícios, dêem a cada freguesia, o quantum que, da sua contribuição, exceda a cota para os encargos gerais do município

Até aqui, confessamos, tinhamos a mania ultra-bairrista de que para dar pão não havia, em parte nenhuma, terras como as de Beja. Mas, agora, finda mais esta jornada, fomos obrigados a reformar a basófia, talvez por tanto a miúdo termos ouvido falar nas várzeas de Alvalade. Na verdade, as mais berrantes e esperançosas cearas, quer na cor, quer na promessa, vimo-las lá, ocupando todo um baixio rico de seiva e ganância. Curtas ainda, mas já enchendo a vista de quem passa, bolindo à brisa ténue do dia como cabeleira débil e rara a maré de verão. E nossos olhos, quase sempre procuram o milagre da fartura, vogam pelo trigo fora em deliberada rusga de contentamento. E meditando a muito, não nos fartamos de dar graças à natureza pródiga e generosa que entrega ao homem, como prémio pelo seu esforço audaz, um oceano de pão sobre cujas ondas verdes singra sempre a barcarola da vida. A terra! Germina sempre, é certo, melhor ou pior, sim, mas regada também pelo suor de quem a faz rica e fecundante. Deixá-la, é perdê-la. Negar-lhe carinho e carícias é contar com o seu amuo. A natureza, só, não lhe basta. O Sol apenas não a satisfaz nas suas exigências. A chuva é-lhe cara, mas não a leva a recusar o concurso heróico do braço humano, que ora lhe entrega a companhia fortuita da semente, ora a alivia, depois, do peso esmagador do fruto. A terra! Deixá-la, é perdê-la! E, na verdade, as mais berrantes e esperançosas searas, quer na cor quer na promessa, vimo-las lá, ocupando todo o baixio rico de seiva e ganância, enxergamo-las lá, nas luxuriantes várzeas de Alvalade!

Depõe a junta de freguesia – de rendimentos, obras a ida para Messejana, fala-nos o sr. Vasco José da Silva, actual tesoureiro da junta

Depois dum cálice de Vinho do Porto, a conversa animou um pouco mais, indo com rumo firme até onde queriamos. Como já tinhamos percorrido toda a terra, colocando-a assim em confronto com muitas outras já visitadas por nós, não nos foi muito difícil entrar no âmbito do nosso plano inquiridor. Messejana, o pomo da discórdia, veio à baila mais uma vez, para que nem tudo fosse um simples tagarelar sem norte nem interesse. Então como sabíamos que havia na nossa frente quem representava, em parte, a força administrativa da vila, não deixámos arrefecer o tema e fizemos com que o sr. Vasco José da Silva nos desse a sua opinião sobre a ida para o concelho de Messejana, agora em vias de restauração. E, desta sorte, lançámos a pergunta inicial não sem que aguardássemos com avidez a tornar a colher:

– Concorda com a passagem da sua freguesia para o concelho de Messejana? Firme e veloz saiu a resposta:

– Não senhor! Nem pensar nisso é bom. Cá na vila, que seja daqui natural, não encontra nem uma pessoa que não pense como eu, pode crer.

– Mas fala-se tanto…

– É claro que se fala, mas em não sair aonde estamos. S. Tiago não nos dá menos do que Messejana nos daria…

Feitas as perguntas e tomadas as respostas, voltámos a inquirir, embora sobre outro assunto.

– São grandes os rendimentos da Junta de Freguesia?

– Não, meu amigo. Em todo o caso, se quiser, pode apontar os seguintes números, pois pouco mais temos: foros, 389$35; rendas de casas, 200$00; juros de inscrições, 50$00; subsídio da câmara para a iluminação pública, 330$00. Claro que são cifras anuais e nem sempre certas.

– Mas isto tudo é muito pouco!

– Então, que quer?

Agora, para não ficarmos por aqui, ainda fomos mais por diante:

– A Junta não projecta levar a efeito quaisquer melhoramentos na vila?

– Sim senhor, projecta. Já pensámos na canalização da excelente água do Pombal para o Largo da República, aonde se construiria um chafariz. Mas, compreende, isto não passa de um projecto por falta de verba.

– Que mais?

– Era também plano nosso ajardinar e arborizar o referido Largo, transformando-o numa praça bonita e decente. Mas…

– Sim, atinjo…

Para não ficarmos mudos por muito tempo, fomos recomeçando:

– Porém a vila…

– Sim, a vila teve a sua época de esplendor. A atestá-lo temos o facto de ter possuído Misericórdia, Hospital, etc, e possuir ainda o edifício dos Paços do Concelho e o Pelourinho.

– E no capítulo da instrução? – interrogámos.

– Nesse capítulo estamos mal servidos, como já deve saber. Há dois edifícios escolares que não valem um dos mais pobres. Um é propriedade da câmara, em melhor estado, e outro particular, sem condições nenhumas de educação, pois até tem a cadeia nos baixos.

Não vemos que mais fosse necessário saber da Junta de Freguesia para concluirmos que a vila não tem subido a um melhor conceito de valia, por virtude do débil auxílio que a sede do concelho lhe tem prestado. Achamos que seja assim, mas também achamos que a Junta de Freguesia se devia impor duma maneira mais interesseira perante a Câmara  para que a Vila não marque passo na estrada do merecimento progressivo. E, a não ser assim, as terras sem recursos próprios, como esta, naufragam no mar do esquecimento geral.

Correspondente do nosso jornal em Alvalade, Joaquim Vicente

_Artigo publicado no jornal “Ala Esquerda”, edição nº 383, de 30 de Março de 1933. 

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