O Sol de final de tarde dourava a calçada inclinada, mas no passeio elevado defronte à taberna, a sombra já começava a estender-se. Claudino, conhecido por todos como o Quedas, limpava o balcão de madeira gasta com um pano encardido, enquanto o burburinho na rua marcava o ritmo da vila.…
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O sol de outono declinava no horizonte de Alvalade, tingindo o céu com tons de oiro e bronze antigo. A grande azáfama das colheitas chegara ao fim. Terminada a apanha do tomate, vindimadas as uvas em Conqueiros e recolhido o milho, a terra parecia suspirar — cansada, mas generosa. Para…
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A geada fina de finais de novembro cobria o vale do Sado com um manto cinzento, mas no interior do Hospital do Espírito Santo, na rua Quente (actual rua da Cruz), o calor vinha do medo. O clérigo Estêvão da Frota, com as mãos trémulas, tentava ajeitar os dois únicos…
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O sol de outono dourava o piso rude da rua Quente (actual rua da Cruz), projetando sombras longas sobre a parede de taipa do Hospital do Espírito Santo. Sentado no poial de pedra, junto ao portal, Tristão Mendes, o mordomo da confraria e do hospital, com o olhar cansado mas…
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Quem percorre a cintura de Alvalade, depara-se com um cordão verdejante que teima em abrandar o tempo. São as hortas dos alvaladenses. Pequenos pedaços de chão, vigiados por canaviais, árvores de fruto e velhas oliveiras, que guardam uma tradição e herança com muitos séculos de existência, transmitida de pais para…
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O calor de verão em Alvalade continua igual: pesado, lento, quase como se a própria terra estivesse cansada de carregar o sol. No entanto, falta-lhe aquele som, o eco vibrante que outrora definia estes meses. Quase perdidos na bruma dos anos, estão os dias em que o verão aqui era…
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Na Alvalade das idas décadas de 30, 40, 50 e 60, o relógio do trabalhador era o próprio sol, dividindo a rudeza dos dias em três momentos de pausa: o almoço, o jantar e a ceia. Ao romper da aurora, pelas oito ou nove badaladas da manhã, o corpo pedia…
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O meu tempo de garoto e adolescente foi feito de silêncio, de gente simples e almas humildes que a nossa vila acolheu e o vento dos anos acabou por esconder ou levar… Na quietude daqueles dias passados, temíamos a passagem do enigmático e velho Jordão, um maltês simplório e sempre…
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Longe vão os tempos das noites infinitas nas ruas e nas tabernas de Alvalade quando se juntavam grupos de homens para desafiar a solidão dos dias. Ali, entregavam-se ao cante puro, um lamento sem o amparo de qualquer instrumento musical, que rasgava o breu da noite. Erguia-se, então, a dureza…
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Erguido no terreno sagrado e sob a influência das ruínas da ermida de São Sebastião, o velho depósito elevado de água ergue-se no cimo da vila como uma sentinela solitária… Uma torre de betão que rasga o céu dos dias, guardando nas suas entranhas o latejar silencioso do precioso líquido.…
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A icónica Ponte dos Arcos ergue-se como um esqueleto de betão sobre o rio Sado, suspensa sobre o tempo. É testemunha, há mais de 70 anos, do vaivém constante da vida: o ranger das viaturas que a usam, o eco das partidas sem promessa e o silêncio pesado dos regressos……
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A velha fonte da Bica, que tanta sede saciou, guarda memórias de um tempo que já não volta… Foi ponto de encontro onde o tilintar das bilhas de barro ditava o ritmo dos dias. Quem bebeu daquela água, ainda hoje guarda no peito a nostalgia de um tempo e de…
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Quantas gerações aqui viveram e fizeram estas velhas ruas fervilhar de vida? Por aqui circularam homens de chapéu e mulheres de xaile, figuras que transportavam o peso dos dias com uma resiliência silenciosa. Eram tempos do “bom dia” à porta, e da preocupação e solidariedade dos vizinhos que se manifestavam…
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Ando por aqui há muitos anos… Nasci a escassos 15 metros do adro, quando ainda não tinha muro e o piso era de terra. Quando era um espaço de recreio improvisado, onde as crianças das imediações corriam, jogavam à bola ou inventavam as suas próprias brincadeiras. Aqui, o tempo ainda…
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Quantos pães terão sido cozidos neste velho forno a lenha, que hoje jaz no Vale do Sado nas imediações da ORISUL? A boca escura do forno, agora fria, conta o peso do abandono. No entanto, tocando nas suas paredes de tijolo quase que se consegue ouvir o estalar rítmico da…
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Pelas escadinhas do Cerro do Moinho subiram e desceram amores e desamores… Cada degrau guardava o eco de duas histórias distintas: a da subida, leve e cheia de expectativa, e a da descida, por vezes pesada pelo silêncio dos desencantos. Ali se cruzavam os que subiam com o coração aos…
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As instalações da antiga ECA guardam muito mais do que o eco das máquinas ou o pó dos anos; elas guardam a história das famílias que ali nasceram. Quando olhamos para o que resta da fábrica não vemos apenas paredes e ferro, mas sim um berço desta comunidade. A ECA…
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O nome da ladeira eternizou a alcunha do carismático taberneiro que, a meio da subida, servia copos de vinho e petiscos numa das portas mais concorridas da vila, no século passado. Até 1914, aquela rua inclinada foi a principal entrada da vila. Era também por ali que as mulheres da…
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