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Colmeias e mel

valecampiNos sítios abrigados, e com um certo declive, em tempos mais recuados, de que ainda me lembro, faziam-se as malhadas das colmeias, isto é, uns socalcos, em anfiteatro, aonde eram colocados os cortiços com abelhas. O cortiço destinado a colmeia, formava um cilindro de diâmetro regular ligado com pinos de madeira, e a boca de cima era coberta com um disco de cortiça também pregado. Por dentro era atravessado com duas ou três ordens de varetas, aonde as abelhas pousavam e formavam os favos, e na outra boca que assentava no chão, havia uma pequena fenda por onde as abelhas entravam. Havia malhadas com algumas centenas de cortiços, pois que estando o terreno quase todo coberto de mato, as abelhas tinham pasto abundante para o fabrico do seu mel. As malhadas eram frequentemente vigiadas e limpas. Tinham bastantes inimigos nos pastores e caçadores furtivos e nos pássaros e répteis.

As colmeias tinham cotação no mercado e, por vezes, entravam com outros géneros nos contratos. Em vários forais, os enxames tinham capítulo que os regulava, e os comendadores, nos contratos de arrendamento das suas comendas, ou reservavam para si o tributo das colmeias, ou exigiam determinadas arrobas de cera e canadas de mel. Em algumas freguesias, parte do pé de altar dos párocos era pago em colmeias.

Em Abril e Maio saiam os garfos, enxames novos, que eram recolhidos em cortiços vazios que sempre havia reservados para este fim. A cresta ou colheita do mel e da cera era feita na época própria – Agosto e Setembro. O crestador munia-se de máscara de arame – o toso – adaptada a uma espécie de saco de pano, que enfiava pela cabeça. O cortiço era destapado, após uma fumigação acre que afugentava e entorpecia as abelhas, tornando assim mais fácil o trabalho mas com grande prejuízo das abelhas, pois morriam muitas. Com um ferro próprio, tiravam os favos, deixando uma pequena reserva para sustento das abelhas que voltavam, fiéis ao cortiço. Os favos recolhidos em celhas grandes eram conduzidos para casa e aí espremidos à mão, resultando daqui o mel. A cera que fica, geralmente em grandes bolas, é depois escaldada em água fervente, formando o que se chama água-mel. Depois de limpas do mel, as bolas de cera, entram no mercado. O mel era depois coado e purificado para os diferentes usos culinários e terapêuticos. Davam as colmeias um rendimento compensador. Os proprietários consentiam geralmente malhadas de colmeias nas suas propriedades e outros, cultivavam-nas por sua conta, mas o mel tinha sempre largo consumo no lar doméstico. Com o aproveitamento dos terrenos e limpeza que se lhes fez, as malhadas de colmeias desapareceram e somente um ou outro curioso, derradeiro abencerragem(1) dos grandes colmeais, é que ainda cultiva o precioso cortiço de abelhas, actualmente, verdadeira peça de museu. As modernas colmeias de alças ainda não estão vulgarizadas, pois além de exigirem técnica mais complicada, nem sempre há próximo o alimento, sendo, por vezes, necessário cultivá-lo para sustento das abelhas. Em 1942, nas Sesmarias do Monte Fava, foi instalado um apiário com algumas dezenas de colmeias móveis, por Manuel Anjinho, carpinteiro, residente na Estação de Ermidas, de sociedade com outros indivíduos ali residentes.

(1) Cavaleiro galante

 

_Apontamentos históricos do Padre Jorge de Oliveira  (1865/1957), pároco de Alvalade entre 1908 e 1936, para uma monografia que não chegou a publicar.

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