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Igrejas e culto religioso

miseri.2Além da igreja matriz, sob a invocação de Nª Srª da Conceição da Oliveira, o culto religioso era exercido, na área da freguesia, na igreja da Misericórdia, sita na Praça desta Vila de Alvalade, templo de uma só nave, coberta de abóbada, caída em 1929, com a sua capela-mor e um único altar, tendo a sacristia ao lado direito uma casa contígua para arrecadação da tumba e insígnias nos funerais dos irmãos falecidos e também no dos pobres falecidos no hospital ou sem assistência. Na mesma praça, a norte dos Paços do Concelho e do Pelourinho, já na Rua de Lisboa, existia uma ermida dedicada ao Divino Espírito Santo, contígua à travessa do mesmo nome, que ainda existe e descia em declive suave até à Fonte Branca, seguindo daí em carreteira, até ao Porto de Beja, sendo esta a melhor entrada para a Vila. A mencionada ermida consistia num velho casarão, sem arte alguma, onde se erguia um pequeno altar. Tinha festa no dia próprio, que servia de pretexto para a distribuição do Bodo que consistia em pão, carne e vinho, que era distribuído não só aos pobres mas também aos remediados e era fornecido pelos lavradores abastados que ofereciam reses, chibatos, farinha, etc. O terramoto de 1755 arruinou muito esta capela, cuja porta era voltada ao poente e, não tendo sido reparada, o seu terreno foi mais tarde aforado pela Junta de Freguesia, sendo hoje a residência particular de um proprietário. Havia também na Rua de S. Pedro, no “Cerrado de S. Pedro”, contíguo ao Rossio da Vila e junto à estrada que conduz à Fonte do Pote, uma ermida consagrada ao Príncipe dos Apóstolos, que já estava muito arruinada em 1749, tinha a sua irmandade e alguns bens.

Em 1854, neste mesmo local, e em parte do referido cerrado de S. Pedro, foi construído, por subscrição pública, o cemitério da freguesia, visto terem sido proibidos os enterramentos nas igrejas. Foi benzido pelo pároco de então, o Padre Bernardo António de Sousa. Tem portão de madeira e duas janelas laterais com gradeamento de ferro e ao fundo uma pequena capela, com altar, servindo para as encomendações e depósito dos cadáveres. Lateralmente à capela, havia dois ossários, um dos quais foi aproveitado para nele se construir uma casa, com dois compartimentos, para arrecadação dos esquifes e ferramentas para o serviço do cemitério. Como já era pequeno, foi ampliado com o restante terreno do antigo “Cerrado de S. Pedro”. Nos olivais a Sueste da Vila, existia uma ermida dedicada ao mártir S. Sebastião. Era de uma só nave, com capela-mor abobadada, com um pequeno altar e porta voltada ao poente. Tinha a sua mordomia e, todos os anos, a sua festa. A imagem do Santo era conduzida processionalmente, na véspera, para a Matriz onde havia Missa Solene e procissão pelas ruas da Vila, voltando, no dia seguinte, para a sua capela. Os constantes arrombamentos da porta e desacatos no interior da capela, motivaram a retirada da imagem para a igreja paroquial, com os poucos utensílios do culto lá existentes. Está em ruínas.

Também a Sueste, na margem esquerda do Sado, em Gaspeia, havia uma ermida dedicada a S. José, de que já não há vestígios. Pertencia aos morgados de Gaspeia.

Na Herdade do Roxo, havia um templo de uma só nave, com sua capela-mor abobadada, sacristias e baptistério. Foi durante os séculos XVII, XVIII e parte do XIX, sede de uma freguesia – “Nossa Senhora da Conceição da Azinheira do Roxo”. Pertencia à Ordem Militar de Santiago, sendo o portal gótico, simples, encimado pela Cruz da Ordem. Teve na frente um grande alpendre e o adro, com alguns cruzeiros. Nele e na igreja eram feitos os enterramentos. O pároco e o ermitão, tinham residência independente, com forno e cavalariça. O pároco tinha uma terra que levava 3 alqueires de semente. Esta paróquia que foi instituída após o Concílio de Trento, foi extinta em 1835 e anexa à de Alvalade. Em 1905 manifestou-se incêndio na mesma igreja, acabando ali o culto. O proprietário da Herdade apoderou-se de tudo, fazendo dos restos da igreja um barracão para serviços agrícolas. Tendo passado a outro dono, o actual proprietário, derrubou tudo e até a própria pia baptismal está servindo de reservatório para cal. O Ministério das Finanças instaurou processo de reivindicação de posse, pois os bens das Ordens Militares, em 1834, passaram para o Estado, mas parece ter havido composição (numa certidão passada pelo Padre Francisco Guerreiro Metelo, freire professo da Ordem de Santiago, capelão da Capela curadora de Nossa Senhora do Roxo, anexa à Matriz da Vila de Alvalade, declara-se que: “a dita capela não tem rendimentos para haver o que faltar para acabar de pagar a conta da despesa de ornamentos feita em 12 de Janeiro de 1725″).

Na Ribeira do Roxo, no terreno denominado Herdade ou Courela do Valdez existiu, antes de 1649, durando até 1890, uma capela cujo padroeiro era S. Roque. Era, como as outras capelas, de uma só nave, sem arte alguma digna de menção. Tinha mordomias e, quase todos os anos ali se fazia a festa do padroeiro, em 16 de Agosto, com grande afluência de povo, pois o local era muito pitoresco e próximo da ribeira, que nesse tempo apresentava luxuriante vegetação em que predominava o loendro (loendrum roseum), vegetação que acabou logo que a Mina de Aljustrel começou a despejar para esta ribeira as águas da lavagem dos minérios. Flora e fauna, tudo se foi. Desta capela poucos vestígios existem. Numa série de artigos que escrevi para o periódico “Nossa Terra” que, em tempo, se publicou em Santiago de Cacém, está um sob a epígrafe “Coisas do Século XVII” onde se descreve uma festa ali realizada – em S. Roque – em 1650. No livro das Vereações do Concelho de Alvalade, com princípio em 26 de Julho de 1816 e encerramento em 15 de Maio de 1836, existente no Arquivo da Câmara Municipal de Aljustrel, ali, a fols. 228, se diz o seguinte: “Foi presente em sessão camarária em 29 de Novembro de 1835, um ofício do Governador do Bispado de Beja, de 20 do mesmo mês, e uma Portaria do Governo de S.M. de 26 de Outubro, consultando a Câmara, se dava ou não o seu voto para a anexação da freguesia do Roxo à de Alvalade. A Câmara, ouvindo os paroquianos de ambas as freguesias, foi de acordo que a junção se fizesse, sendo, em seguida assinada” (1835).

Quando em 1836, foi extinto o Concelho de Alvalade, passou esta freguesia para o Concelho de Messejana, que sendo também extinto em 1855, transitou para o Concelho de Aljustrel. Foi durante a sua permanência neste Concelho que, pelo Governo Civil de Beja, foram extintas a (Santa Casa da) Misericórdia e as Confrarias, sendo os bens da primeira incorporados nos da Casa Pia de Beja e os destas, à Junta da Paróquia de Alvalade. Esses bens, sendo quase todos foreiros, foram vendidos e o seu produto convertido em títulos do Estado, averbados naquela corporação. Em todas as igrejas ou capelas existentes na área desta freguesia, se faziam, periodicamente, as festas dos respectivos oragos, com mais ou menos solenidade. Essas festas eram sempre pretexto para a reunião não só dos devotos, mas também de forasteiros que aproveitavam o ensejo para se encontrar com pessoas amigas ou conhecidas e também para se divertirem, porque eram frequentes as cavalhadas e as touradas, dada a abundância de gado adequado que lhes permitia tais divertimentos. Havia vacadas no Roxo, em Vale de Zebro, nos Coitos, em Conqueiros, nos Almargens, na Ameira, nas Borbolegas, na Defesa, no Faial e na Boavista e como nessas já recuadas épocas, os proprietários viviam e residiam nas suas Herdades e quase todos eles possuíam excelentes montadas, de que faziam gala e que lhes serviam para estes desafios. A Igreja Matriz pertencia à Ordem Militar de Santiago da Espada, tinha sobre a porta principal de estilo gótico, de mármore cinzento, uma fogaça e sobre esta um rectângulo um pouco semelhante a um escudo, com as insígnias da Ordem: no meio do campo, a Cruz da Ordem; nos cantos dextro e sinistro do Chefe (?), uma vieira em cada, e nos cantos dextro e sinistro da ponta, em cada um, um bastão da Ordem, os quais, mal desenhados, mais se parecem com peças de artilharia. O Prior e os dois beneficiados adstritos à Matriz, eram freires professos da Ordem e por ela subsidiados pelas rendas da Comenda e cujo Comendador foi sempre da ilustre família dos Sousas. Por este motivo a Matriz, a Misericórdia, as Capelas, Irmandades, Confrarias e Mordomias tinham duas classes de visitadores: O Ordinário e o Juiz da Ordem, como se deduz e verifica nos respectivos livros das Visitações. Havia na Sacristia da Matriz um pequeno quadro de madeira, pintado de branco, com os seguintes dizeres ao lado esquerdo: O Rev. Prior – O 1º Beneficiado – O 2º Beneficiado. Diante de cada um destes dísticos havia um furo aonde se colocava uma cravelha. Servia esta para indicar qual deles estava de serviço durante aquela semana. Na parede da Sacristia havia uma pequena sineira, com sineta, que servia para chamar o pároco ou os beneficiados para os serviços urgentes. Fariam o serviço do Coro em dias determinados e os sinos tocavam a matinas e vésperas. A Irmandade do S.S.mo que dispunha de meios e auxiliada pelos paroquianos abastados fazia sempre as solenidades da Semana Santa para o que convidava, além do clero da freguesia e do pároco do Roxo, dois frades franciscanos do Convento de Messejana. Faziam a bênção e procissão dos Ramos, a Missa, desnudação dos altares, exposição do SSmo no trono e o Lava-pés, na Quinta-feira; na Sexta a Missa, Adoração da Cruz e procissão do Enterro do Senhor, e no Sábado, a Aleluia. Na 5ª e 6ª feira, havia, à noite, os ofícios solenes e no Domingo de Páscoa, a Missa Pascal com a respectiva procissão e sermão. Na Quinta-feira havia o sermão do Mandato e na Sexta o sermão da Soledade. Nesta procissão era conduzida a imagem do Senhor Morto e da Senhora da Soledade. Iam no cortejo a Verónica e os irmãos da Misericórdia, com as suas opas negras, empunhando uma tocha de cera. À frente do cortejo ia o porteiro da Misericórdia, com a matraca. Incorporavam-se nesta procissão os juízes, os oficiais da Câmara, com o seu escrivão, o notário. Enfim, todos os que desempenhavam cargos públicos. O esquife ia debaixo de um pálio roxo e à frente, após o porteiro da Misericórdia, seguia a bandeira desta e o guião das Almas. As várias procissões que aqui se realizaram no lapso de 30 anos, de 1908 a 1935 salientaram-se sempre pela boa ordem e pelo cuidado, asseio e imponência com que tudo e todos se apresentavam, sendo sempre admirados com prazer e respeito pelos paroquianos e pelos forasteiros que as presenciavam. A última procissão realizou-se em 1935, fazendo-se também a comunhão solene das crianças que se incorporaram, levando a sua bandeira, com o andor de Nª Srª do Carmo. Foi um número sensacional, aqui desconhecido, que não só agradou mas chegou a entusiasmar pela forma como foi apresentado. Estas solenidades eram sempre acompanhadas por música que, nos primeiros anos, era a filarmónica de Santa Luzia. Nos últimos anos vinham as filarmónicas de Grândola ou de Alcácer.

Domingo de Ramos

Ao 2º toque para a missa, começavam a entrar os fiéis, velhos e novos, quase todos com o seu ramo florido, que depositavam numa mesa ou credencia, colocada na capela-mor, próximo do altar, para serem benzidos na altura própria.

Os ramos compunham-se, geralmente, de flores do campo, de rosas e lírios, alecrim, rosmaninho, etc. O tesoureiro quase sempre guarnecia os altares com folhas de palmeira que, no fim, eram distribuídas inteiras ou desfolhadas, pelos circunstantes que as pediam. Estas flores e palmas eram, cuidadosamente, guardadas até igual dia do ano seguinte, como penhor da benevolência de Deus.

Ascensão

Nos dias em que, após a Missa, se celebrava a “Hora de Noa”, duas crianças percorriam a igreja, lançando pétalas de rosas nos altares e sobre o celebrante e os fiéis.

De tarde, muitos grupos percorriam os campos colhendo espigas de trigo, papoilas e ramos de oliveira, que simbolizam o pão, a carne e o azeite, para terem abundância de tudo isto em suas casas.

_Apontamentos históricos do Padre Jorge de Oliveira (1865/1957), pároco de Alvalade entre 1908 e 1936, para uma monografia que não chegou a publicar.

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