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Desde os seus primórdios que Alvalade tem na agricultura o pilar fundamental da sua atividade económica. Ao longo de grande parte do século XX, os meses de inverno representavam o período mais crítico do ano para os alvaladenses: escasseavam as oportunidades de labor no campo e a esmagadora maioria da população enfrentava privações severas.
O ano de 1940 fixou-se como um exemplo paradigmático dessa vulnerabilidade, deixando mais de 600 trabalhadores agrícolas desprovidos de ocupação e de qualquer rendimento durante mais de dois meses. Os testemunhos da época recordam oito semanas verdadeiramente trágicas, nas quais o espetro da fome deixou marcas profundas e bem visíveis na comunidade.
A norte da freguesia, o desespero e a revolta contra a miséria iminente culminaram em acesos motins rurais, cuja repressão resultou na detenção de mais de 150 pessoas. Mesmo quando havia trabalho, a mão de obra era fortemente desvalorizada. Ao longo da década de 1930 e nos alvores dos anos 40, a remuneração diária das lides agrícolas praticada na freguesia fixava-se nos seguintes valores:
💰 Remuneração Diária das Lides Agrícolas
Homens
- Sementeira: 7$00 a 8$00
- Mondar: 6$00 a 7$00
- Ceifar: 12$00 a 14$00
- Debulha: 10$00 a 11$00
- Cava da vinha: 9$00 a 10$00
- Podar: 8$00 a 9$00
- Tratamentos (químicos): 7$00 a 8$00
- Vindima: 7$00 a 8$00
- Limpeza de olivais: 7$00 a 8$00
- Limpeza de montados: 8$00 a 9$00
- Tirar cortiça: 12$00 a 14$00
Mulheres
- Mondar: 3$00 a 4$50
- Ceifar: 5$00 a 7$00
- Apanhar azeitona: 3$00 a 3$50
⏰ A Jornada Solar de Trabalho
Durante muitas décadas, o relógio que governava as tarefas rurais em Alvalade era o próprio Sol, com horários que oscilavam consoante a estação do ano:
- De 1 de setembro a 31 de março (Inverno): O trabalho iniciava-se com uma hora de sol, contava com um intervalo ao meio-dia para o “jantar” (a refeição do meio do dia) e encerrava ao pôr do sol.
- No Verão: A jornada começava mal o sol despontava. Às 9 horas da manhã, fazia-se uma pausa de uma hora para o “almoço”; ao meio-dia, guardavam-se duas horas de intervalo para o “jantar” e o labor terminava quando restava apenas meia hora de sol.
🏠 A Habitação e a Sobrevivência
Quem hoje percorre a vila de Alvalade dificilmente consegue conceber a extrema modéstia da maioria das habitações em tempos não muito distantes. Geralmente térreas, eram erguidas em taipa e assentavam sobre chão de terra batida, embora existissem algumas estruturas em tijolo ou cimento. A grande maioria comunicava com o exterior apenas através de uma porta de postigo. A ausência de janelas devia-se ao custo dos materiais; a colocação de uma ou duas aberturas de luz era, por isso, um privilégio inacessível à maioria.
Caiadas por dentro e por fora, estas moradas tinham geralmente duas divisões — sendo raras as de três e frequentes as de uma só cela. Nas casas de duas divisões, a divisão de entrada acumulava as funções de cozinha, sala de jantar e sala de estar; o espaço contíguo servia de quarto de cama e, não raro, de despensa. As instalações sanitárias eram uma realidade inexistente para a generalidade da população, que só as veria integradas no quotidiano alguns anos após a Revolução dos Cravos.
🍲 O Repasto Quotidiano
A subsistência alimentar estruturava-se em três momentos marcantes: almoço, jantar e ceia.
- O Almoço (entre as 8h e as 9h): Consistia habitualmente numa sopa de toucinho ou numa açorda de alho e coentros, por vezes acompanhada de conduto. Nos agregados de maior carência, reduzia-se a pão com café.
- O Jantar (entre as 12h e as 13h): Constituía a principal refeição do dia, baseada numa sopa de grão ou de feijão, enriquecida ora com arroz, ora com massa.
- A Ceia (entre as 20h e as 21h): Repetia o prato do meio-dia ou consistia simplesmente em pão com conduto, como uma sardinha assada, azeitonas ou queijo.
Em dias festivos, e sempre que a fragilidade das posses o permitia, o repasto era honrado com um cozido à portuguesa com carne de porco ou um guisado de borrego. Tempos de enorme dureza que, apesar de passados, permanecem profundamente gravados na memória viva das gerações mais idosas.
_Luís Pedro Ramos
Não sei que porque temos que chorar o passado, quando na realidade temos que viver o presente e construir o futuro. Concordo que os ordenados eram muito baixos, mas tem que se olhar que estavam conforme o valor do custo de vida, temos que tomar em consideração por quanto se vendia um Kg de trigo ou quanto custava um litro de gasóleo.
Para falar de valores referentes aos anos trinta tem que se fazer a correcção para valores em que se toma em consideração vários factores, pois de outra forma o artigo não é objectivo.
Recordo o ano da fome em todo o Alentejo, em que alguns empresários agrícolas mantiveram as portas abertas, para dar géneros alimentícios a quem estava numa situação tão precária.
Gostaria também de dizer que o ano da fome, foi um Inverno com chuva seguida que arrasou as culturas e onde houve grandes perdas nas explorações agrícolas.
Não entendo o que quer dizer que o meu comentário aguarda moderação!…
Será que dizer a verdade, ofende quem fez o artigo que estou a comentar!…
Tem a ver com a gestão da página. Não são permitidos comentários com linguagem obscena, ofensiva, etc. Por isso os comentários não ficam on-line imediatamente. Nada mais do que isso.
_LPR
O tempo da fome no Alentejo não foi só um Inverno com chuva seguida, foram muitos e muitos Invernos… O Sr. D. Vasco Passanha fala assim porque, enquanto muitos trabalhadores rurais de Alvalade passavam fome e carências de toda a ordem, a ele e à sua família, nunca lhes faltou nada, creio eu.
É verdade que devemos viver o presente e construir o futuro, mas a quem viveu este passado é muito difícil esquecer.
Ao D. Vasco Passanha, devo relembrar que fome no Alentejo, foram décadas e não um Inverno!
E será que hoje, passados tantos anos, não continuamos com aglomerados de fome, enquanto o D. Vasco e família, felizmente, não sabem o que isso é?
É preciso viver o presente para construir o futuro, mas, nunca, esquecendo o passado.
Tem toda a razão Portugal foi até aos anos 50 um um país subdesenvolvido. Ninguém escolheu nascer rico ou pobre é uma fatalidade ou sorte que nada teve a ver com as nossas escolhas.
Uma vez que todas as respostas tocam na minha família, quero esclarecer que a miséria somente termina com o desenvolvimento e emprego.
A minha Família desde o principio do século que concorremos para acabar com esse flagelo criando riqueza e emprego.
Somente para enumerar algumas iniciativas:
– Eletrificação do sul de Portugal (Aliança Eletrica do Sul)
– Estaleiros de São Jacinto (Construção naval)
– Empresa de Pesca de Aveiro (Pesca e seca de bacalhau e conservas)
– Noudar (Azeitona recheada em Moura)
– Eca (Concentrados de Tomate em Alvalade)
– Consol (Concentrados de Tomate Canhestros)
– Taifas Indústria e Comércio de Azeite S.A. (Azeites em Ferreira do Alentejo)
Pelos testemunhos de várias pessoas de Alvalade, com a ECA Fundada por mim com capitais maioritários da Família Passanha, Alvalade teve a “Idade de Ouro”.
Quero notar de que além do emprego os nossos empregados tiveram as seguintes benesses:
– Uma cantina com aquecimento central, refeições subsidiadas pele empresa,
– Subsídio para a cantina da escola de Alvalade alimentar os alunos,
– Pagamento de transporte para os filhos dos empregados poderem frequentar o liceu em Santiago
– Um mini-supermercado com produtos a preço de custo com renda e empregados gratis e um pronto a vestir.
– Um terreno para fazer uma urbanização com projecto aprovado.
– Empréstimos e ajudas de equipamentos para casa própria,
– Os pequenos Ceareiros de tomate empréstimos bancários avalizados por nós, adubos e produtos químicos a crédito e assistência técnica para que tivessem bons resultados -são testemunhas de tudo isto os inúmeros empregados e ceareiros que singraram na vida.
Finalmente de futuro não vou comentar mais nada para este assunto.
Creio que a destruição deste bem estar que havia em Alvalade, foi como é do conhecimento geral, feito por quem aplicou e seguiu a ideologia do PC.
Finalmente não me queixo do passado, apesar de ter perdido tudo, porque procurei viver o presente com esperança no futuro.
Para terminar quero deixar claro que no caso da ECA já perdoei há muito tempo a todos pois tratou-se de um problema de falta de cultura de que não tiveram culpa.
Na qualidade de filho de uma ex-trabalhadora da ECA confirmo que fiz boa parte do ensino secundário em Santiago cujo passe da rodoviária foi suportado pela ECA, e a empresa tinha também uma creche/infantário para os filhos dos funcionários. No Natal a empresa organizava uma grande festa para os trabalhadores e famílias, e eram distribuídas/oferecidas prendas.
Na altura não acredito que houvessem muitas empresas com esta filosofia e condições. Ainda hoje rareiam.
Quanto ao período quente da ocupação, os alvaladenses mais esclarecidos e que acompanharam a situação de perto sabem o que lá aconteceu.
_LPR
O passado é memória, é história, são ensinamentos.
Enquanto se continuar agarrado a preconceitos, a julgamentos sumários, a juízos pré definidos, não se consegue andar para a frente e progredir.
E isto aplica-se ao pré 25 de Abril ou pós 25 de Abril….injustiças, arbitrariedades, visões distorcidas.
Não se consegue progredir se continuarmos sempre a olhar para trás, para 40 ou 50 anos atrás.
Os tempos do Estado Novo, graças a Deus, não voltam, mas ainda existem muitos que gostariam de voltar ao período pós revolucionário.
Pois nem um nem outro foram benéficos para o País e para a nossa região!