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Durante séculos, inúmeros terão sido os olhares que se ergueram e fixaram no relógio de sol seiscentista, de tipologia vertical meridional, adossado na face sul da torre sineira da Igreja Matriz de Alvalade. Esculpido numa pequena mas perene placa de pedra de Trigaches, este instrumento ofereceu as horas solares à vila e aos forasteiros que por aqui passavam, numa época em que o templo matriz se afirmava como o principal polo de referência e sociabilidade da comunidade.
A projeção da sombra do estilete de ferro sobre o mostrador — cujas marcações horárias se desenham em numeração arábica — media o tempo verdadeiro e regulava o pulsar quotidiano da paróquia. Por ele se orientavam os fiéis para os ofícios divinos e momentos de oração, e os moradores para as lides do campo e demais afazeres diários. É mesmo altamente provável que o seu gnómon tenha ditado o ritmo dos dias ao grande mestre entalhador Manuel João da Fonseca, e aos seus oficiais, durante a execução do notável retábulo-mor da matriz, em talha dourada, no último quartel do século XVII.
Embora o velho quadrante solar tenha perdido a sua primazia e utilidade prática com a instalação do relógio mecânico em 1916, igualmente colocado na torre sineira, permanece como uma peça fundamental da memória e da alma do adro. Silencioso, ele continua a medir a passagem do tempo e a oferecer as horas a quem quer que, num olhar cúmplice, as saiba pedir…
_Luís Pedro Ramos
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