Início » Últimas » Sem comboios nem estação um século depois da inauguração da linha do Sado

Sem comboios nem estação um século depois da inauguração da linha do Sado

comboio.fogueteNo dia 23 de Agosto de 1914, às 9 horas, ainda muitos dormiam a sono solto, e já a banda dos bombeiros de Beja excitava a indolência dos habitantes, com uma marcha viva e alegre, chamando-os, apressadamente, para fazerem as honras aos hóspedes e forasteiros, que nos vinham visitar, e que não deveriam demorar muitos minutos. Posto tudo em movimento, seguiram para a Estação dos Caminhos de Ferro de Alvalade, cuja inauguração ia fazer-se com a entrada do primeiro comboio, que vinha da Funcheira, com passageiros e deveria chegar a Alvalade às 9.30. Às 9.20, o telefone anunciava a partida de Torre Vã, e os fogueteiros, espalhados pela linha, recebiam ordens para que os foguetes estalassem no momento preciso. Às 9.28, do disco, veio o sinal de alarme: os filarmónicos alinham-se na gare, as autoridades e o povo enchem o recinto da Estação. Às 9.29, rebenta, nas agulhas, uma salva de morteiros, e, às 9.30, vê-se avançar, lenta e majestosa, sob um arco triunfal e uma nuvem espessa de foguetes que atroam os ares, a primeira locomotiva, as primeiras carruagens e os primeiros passageiros. Os lenços de uns e de outros saem, instintivamente, das algibeiras e esvoaçam, no ar, como pombas brancas, e o comboio entra, na estação, sob uma trovoada de palmas e vivas, ao som do hino nacional. Ninguém pode furtar-se à natural comoção deste momento, mas, a breve trecho, o entusiasmo apodera-se de todos, trocam-se abraços e cumprimentos, e, novamente, estalou outra saraivada de palmas e vivas, que levaram, ao rubro, a índole, habitualmente, fria e indiferente desta gente: É que todos anteviam um futuro cheio de esperanças.

O trecho acima, da autoria do Padre Jorge de Oliveira, descreve com rigor a euforia e o ambiente festivo que Alvalade viveu na inauguração da sua Estação Ferroviária e do primeiro troço da linha do Sado, em 1914. Muitos alvaladenses ainda se lembram certamente do movimento frenético e de grande intensidade que a Estação da CP de Alvalade viveu, e a importância que o transporte ferroviário de passageiros e de mercadorias representou para a freguesia ao longo de quase todo o século XX. Menos de um século depois, Alvalade e muitas outras povoações servidas pela linha do Sul deixaram de ter serviço de comboios e viram as suas estações encerradas e abandonadasAlgumas delas pouco tempo depois de terem recebido investimentos de grande vulto, como foi o caso da estação alvaladense. O fim dos comboios em Alvalade significou mais uma machadada e um travão no desenvolvimento da freguesia, uma decisão inversa ao que se está a fazer em muitos países desenvolvidos que estão a apostar e a investir fortemente nas suas redes ferroviárias, renovando linhas e serviços, naquele que muitos entendidos defendem ser o meio de transporte do futuro.

_LPR

2 Respostas a Sem comboios nem estação um século depois da inauguração da linha do Sado

  1. João Nelson Plácido Responder

    14 de Julho de 2014 em 8:35

    Realmente é uma vergonha o que se passa em Portugal, desperdiçar um meio de transporte como o comboio, numa altura em que praticamente toda a gente se queixa dos elevados preços do combustível e muitos gostariam de poder utilizar o comboio se tivesse disponível e bons horários e preços um pouco mais acessíveis.
    Uma excelente reportagem, com cerca de 36 minutos, foi exibida na RTP2 de 2 a 7 de fevereiro de 2012 no programa Biosfera com o título “Comboios com pouca terra” onde falam do que se passa cá em Portugal, pode ser vista na Internet em: https://www.youtube.com/watch?v=ucJjxJ66rf4 (se desaparecer o exato mesmo vídeo pode ser visto em: http://www.youtube.com/watch?v=6bOYtcd3IXA)
    Também foi emitido pela Sic uma reportagem especial (“Fim de Linha”) com cerca de 17 minutos a falar dos comboios, neste caso sobre a Linha do Tua onde se compara a linha cá em Portugal e as linhas férreas em Espanha, nos contrastes… cá em Portugal encerra-se e lá em Espanha a única linha que fechou foi reaberta passado poucos anos já completamente remodelada numa linha com bastantes similaridades com o caso da reportagem a Linha do Tua… pode ser vista online em http://videos.sapo.pt/hjVZBZUB9SZyWycupdfr ou descarregada para o computador em http://www.linhadotua.net/3w/index.php?Itemid=37&id=488&option=com_content&task=view (clicando na imagem e guardando o ficheiro AVI).
    Infelizmente estes politiqueiros só querem auto-estradas… para eles utilizarem claro, que o resto das pessoas mal tem dinheiro para comer quanto mais para andar nas auto-estradas pagas.

    João Nelson Plácido (webmaster do “alvalade.info)

  2. Eufrásia Veríssimo Responder

    23 de Julho de 2014 em 19:21

    É mesmo uma tristeza, toda a gente tem que ter carro, porque se o não tiver, bem pode esperar –sentado– pelo comboio que deixou de parar em Alvalade!

    Quando eu era miúda, paravam na Estação de Alvalade vários comboios, tínhamos Cinema, tínhamos uma estação de correios…
    Tudo está a andar para trás, lamento sinceramente que seja assim, tudo isso roubou vida à terra. O pior é que isto não acontece só em Alvalade, todo o País está a regredir, veja-se o caso de Setúbal: Gastaram-se milhões de Euros para alterar toda a estação ferroviária, e, logo de seguida, deixaram de passar por lá os comboios principais, só serve para os urbanos.Vamos esperar para ver até onde vai este País…

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.