A banhos no canal…

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O canal de rega do Vale de Campilhas repousa sobre a terra como uma serpente de betão e água… Sob o sol ardente de Alvalade, ele cumpre o seu destino principal: nutrir o solo, matar a sede às culturas e transformar o pragmatismo da engenharia na fartura verdejante dos campos cultivados. Mas a memória daquela água guarda segredos mais frescos e ruidosos… Num tempo não muito distante, quando o verão abrasivo parecia derreter o horizonte e as casas caiadas da vila sufocavam de calor, o canal despia a sua farda de trabalho. Naquela época de carestia, onde os luxos escasseavam e a subsistência exigia engenho, a juventude de Alvalade transformava a escassez em privilégio. O canal de rega passava a ser a piscina da terra, o poço da juventude e o epicentro de uma felicidade simples e gratuita. Entre risos, saltos destemidos e toscas braçadas, o canal lavava as dores da pobreza e a monotonia dos dias longos. Ali, a água que alimentava as culturas da terra saciava também a alma e a audácia de uma geração que sabia tirar partido dos recursos que a vila oferecia.

Hoje, o canal continua a correr, fiel à agricultura que sustenta a região. Mas quem passa pelas suas margens nos dias mais quentes ainda consegue ouvir, no sussurro da água e no restolhar da vegetação, o eco longínquo daquelas gargalhadas antigas. Uma herança de um tempo em que a riqueza não se media em bens, mas na frescura de um banho partilhado no canal de rega de Campilhas…
_Luís Pedro Ramos

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