Os viajantes e almocreves que demandavam a vila vindos de Aljustrel, Ferreira do Alentejo ou Beja enfrentavam primeiro o desafio de cruzar o rio Sado, o que faziam a vau no Porto de Beja ou no Porto de Ferreira. Uma vez na margem direita, tomavam um caminho rudimentar e sinuoso…
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A poeira da estrada que vinha do Sul parecia nunca mais assentar. Manuel da Costa ajustou o capote de lã pesada sobre os ombros robustos, sentindo no rosto redondo o ar húmido que subia das margens do Tejo. Tinha o corpo grosso, talhado pelo trabalho e pelas viagens, e o…
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A poeira da estrada ainda nem assentara nas ruelas de Alvalade quando a notícia começou a correr de boca em boca. Nos campos onde a terra seca teimava em dar o sustento, as mãos calejadas pararam o trabalho. Os olhares, habitualmente pesados de resignação, ergueram-se com um misto de dúvida…
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A geada fina de finais de novembro cobria o vale do Sado com um manto cinzento, mas no interior do Hospital do Espírito Santo, na rua Quente (actual rua da Cruz), o calor vinha do medo. O clérigo Estêvão da Frota, com as mãos trémulas, tentava ajeitar os dois únicos…
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O sol de outono dourava o piso rude da rua Quente (actual rua da Cruz), projetando sombras longas sobre a parede de taipa do Hospital do Espírito Santo. Sentado no poial de pedra, junto ao portal, Tristão Mendes, o mordomo da confraria e do hospital, com o olhar cansado mas…
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Longe vão os tempos das noites infinitas nas ruas e nas tabernas de Alvalade quando se juntavam grupos de homens para desafiar a solidão dos dias. Ali, entregavam-se ao cante puro, um lamento sem o amparo de qualquer instrumento musical, que rasgava o breu da noite. Erguia-se, então, a dureza…
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Quantos pães terão sido cozidos neste velho forno a lenha, que hoje jaz no Vale do Sado nas imediações da ORISUL? A boca escura do forno, agora fria, conta o peso do abandono. No entanto, tocando nas suas paredes de tijolo quase que se consegue ouvir o estalar rítmico da…
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As velhas instalações da antiga ECA guardam muito mais do que o eco das máquinas ou o pó dos anos; elas guardam a história das famílias que ali nasceram… Quando olhamos para o que resta da fábrica não vemos apenas paredes e ferro, mas sim um berço desta comunidade. A…
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O nome da ladeira eternizou a alcunha do carismático taberneiro Claudino que, a meio da subida, servia copos de vinho e petiscos numa das portas mais concorridas da vila, no século passado. Até 1914, aquela rua inclinada foi a principal entrada da vila. Era também por ali que as mulheres…
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O tanque de pedra calcária que repousa no largo da igreja foi pertença do antigo abegão António Mestre (séc. XX). Artífice alvaladense de mestria reconhecida na arte dos carros de tração animal, de charruas e outras alfaias agrícolas, com oficina no fim da rua Padre Abel Varzim, onde trabalhava e…
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O fumo negro da locomotiva a vapor subia e dissipava-se no céu do Alentejo, mas a promessa de um tempo novo ficava gravada nas paredes do velho armazém da Estação de Alvalade. Cada comboio que apitava ao longe e encostava à gare trazia consigo um pedaço do mundo moderno. Era…
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Hoje, quem passa no local, mal consegue adivinhar que sob o manto verde e espinhoso da natureza brava repousam as ruínas dos balneários do desaparecido “Campo de Jogos Custódio Alves”, na periferia desta vila. A natureza reclama o espaço com uma calma cruel, cobrindo as paredes cansadas que outrora testemunharam…
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O silêncio que hoje habita o primeiro terço da rua da Cruz é um eco mudo de outros tempos, uma ausência pesada que esmaga o presente. Durante décadas, este chão foi o coração quente da vila. Aqui existiu uma casa de pão, bolos e de afectos, onde a farinha e…
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No novo Posto Médico de Alvalade, o tempo repousa em silêncio atrás do vidro límpido do antigo armário clínico colocado na entrada (em boa hora preservado)… Ali, sob a luz de uma manhã de primavera, alinham-se instrumentos e outros objectos clínicos do século passado, relíquias de uma medicina feita de…
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Caminhar por estes corredores de silêncio não é um acto de solidão, mas um reencontro… Neste cemitério repousam os nossos antepassados, os mesmos que, com mãos calosas e passos firmes, desenharam o contorno das ruas da vila que hoje calcamos e semearam a identidade que nos define. Cada lápide é…
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As paredes do mais formoso edifício do Cerro do Moinho, guardam o peso de um tempo que já não volta. Onde outrora escorreu a vida administrativa do Posto de Culturas Regadas D. Manuel de Castelo Branco, o eco do silêncio substituiu o som dos passos decididos e das conversas animadas…
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O canal de rega do Vale de Campilhas repousa sobre a terra como uma serpente de betão e água… Sob o sol ardente de Alvalade, ele cumpre o seu destino principal: nutrir o solo, matar a sede às culturas e transformar o pragmatismo da engenharia na fartura verdejante dos campos…
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Aqui já não se ouve o chiar metálico dos travões dos comboios a anunciar a chegada de novidades. O apito estridente que outrora anunciava a chegada da “maria-fumaça” ou das automotoras, há muito que se calou. Na estação, o silêncio é agora o único passageiro que não se atrasa. Não…
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