
O calor de Julho entrava pela vila de Alvalade com o peso do pão maduro e o estalar dos restolhos ao sol de Verão. Mas naquele ano, como em tantos outros, a canícula não trazia cansaço; trazia a promessa da feira.
Dias antes, as estradas de terra batida já levantavam poeira com a chegada das carroças. Vinham forasteiros de longe, gentes de xaile ao ombro e chapéu de feltro, trazendo nos olhos a pressa de quem procura o que a sua terra não dá. No terrado, o cenário montava-se como um teatro vivo. Erguiam-se tendas de panos e mantas de lã pesada, reluziam as louças de barro moldadas pelo fogo e as peças de latoaria que espelhavam o sol brilhante de Alvalade.
Pelas ruelas da feira, o ar tornava-se denso e apetecível. Havia um perfume rústico no vento: o fumo do polvo assado na brasa misturava-se com o aroma doce e seco do torrão de Alicante. Entre os pregões dos vendedores, passavam raparigas de vestidos lavados, de tranças arrumadas e coração aos saltos. Caminhavam em passos lentos, fingindo olhar para as quinquilharias e os panos finos, mas os seus olhos procuravam, na verdade, o rapaz da herdade ou monte vizinho ou o pretendente que a distância do resto do ano teimava em afastar. Havia um burburinho de risos abafados, de olhares cruzados à sombra das barracas…
Mais ao longe, onde a luz do dia começava a fraquejar, a feira mostrava as suas outras faces. O riso dos miúdos subia ao céu com os aplausos do circo e o espanto do teatro ambulante, enquanto os homens desafiavam a sorte no tiro ao alvo ou espreitavam, de peito colado à balaustrada, a vertigem do “poço da morte”. Nas franjas do recinto, longe dos olhares do espaço central, desenhavam-se as sombras da noite e os prazeres proibidos, num comércio de afetos e corpos que a moral da época fingia não ver no meio daquela euforia de Verão.
O tempo, porém, corre como a água da ribeira em inverno de cheia. Chegaram os anos 80, e com eles o piscar de luzes coloridas dos novos carrosséis e o estrondo mecânico dos carrinhos de choque. A feira parecia maior, mais barulhenta, mas o mundo começava a mudar depressa demais. As estradas alcatroaram-se, as distâncias encurtaram e o turbilhão da modernidade acabou por silenciar o terrado de Alvalade.
Hoje, quando o sol de Julho aperta e o vento sopra morno sobre a vila, quem fecha os olhos ainda consegue ouvir, muito ao longe, o eco de um pregão antigo e o riso de uma moça apaixonada. Mas são apenas sombras no pó. A feira agora é um conto que os velhos recordam à lareira, uma doce e bucólica reminiscência de uma Alvalade que o tempo guardou para si…
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