O Bairro da Fonte…

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A memória mais antiga do Bairro da Fonte — que o tempo rebatizou de Rua da Bica — ficou gravada no ano de 1840. No entanto, o pulsar da vida naquele lugar começou muito antes, atraído pelo murmúrio da mui antiga Fonte Branca, a generosa nascente que daria berço à atual Fonte da Bica.
Nas dobras do passado desta rua ecoa também o labor da terra. Em 1904, o abastado proprietário Francisco Mira Pinheiro, natural de Azinheira dos Barros, deixava em testamento as raízes da sua fortuna: «(…) metade d’um lagar d’azeite no sitio da Fonte Branca. Confronta de norte com estrada que vai para a Fonte, sul com olival do Padre Bernardo António de Souza, nascente e poente com terras do Concelho…». A herança, avaliada então em 300 mil réis, antevia um legado que cruzaria gerações. A tradição do azeite continuou a correr no local até à segunda metade do século passado, gravada na memória coletiva sob o nome de ‘Lagar do Cebola’, hoje adormecido pelo tempo.
Mas o coração e a identidade da rua batem, verdadeiramente, no icónico conjunto arquitetónico da ‘Fonte e Lavadouro da Bica’. Erguido em 1918 pelos Caminhos de Ferro Portugueses, o monumento nasceu como um tributo de compensação à terra: a linha férrea tinha ocupado o chão da antiga Fonte Branca, e o progresso ferroviário soube, assim, devolver a água ao povo.
A Rua da Bica foi sempre o berço de gente humilde, moldada pelo trabalho e pela resiliência. Nas suas paredes ficou guardada a memória de uma comunidade que, até ao último terço do século passado, enfrentou as águas impiedosas das grandes cheias do vale do Sado — um rio antigo que tantas vezes inundou o bairro, mas nunca logrou apagar a força das suas gentes.

_Luís Pedro Ramos

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