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A icónica Ponte dos Arcos ergue-se como um esqueleto de betão sobre o rio Sado, suspensa sobre o tempo. É testemunha, há mais de 70 anos, do vaivém constante da vida: o ranger das viaturas que a usam, o eco das partidas sem promessa e o silêncio pesado dos regressos… É o cordão umbilical que teima em ligar esta terra ao resto de um país distante, enquanto as suas fundações mergulham num passado que já ninguém consegue tocar.
No século passado, aqueles arcos conheceram o pulsar de Alvalade. Os domingos tinham a lentidão das tardes douradas. Grupos de amigos e casais de namorados caminhavam lado a lado, em romaria lenta pela estrada de alcatrão ou pela frescura da várzea. A ponte era o destino final de uma procissão de afetos, um palco improvisado onde a vida se fixava em fotografias a preto e branco, hoje guardadas e esquecidas em velhas gavetas.
Debaixo da ponte, o rio Sado corria com o fulgor de uma juventude eterna. As suas águas, límpidas e majestosas, refletiam uma beleza viva, um espelho de prata que cantava entre as margens e alimentava a alma da terra. Havia uma força antiga naquele curso de água, um vigor que parecia prometer que tudo ali seria eterno.
Hoje, o rio corre cansado, quase mudo e atapetado de plantas invasoras… O murmurar da água parece chorar o que se perdeu. A antiga azáfama dos domingos na ponte deu lugar a um vazio ensurdecedor e queixoso da solidão dos dias…
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