A ladeira do Quedas (conto)…

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O Sol de final de tarde dourava a calçada inclinada, mas no passeio elevado defronte à taberna, a sombra já começava a estender-se. Claudino, conhecido por todos como o Quedas, limpava o balcão de madeira gasta com um pano encardido, enquanto o burburinho na rua marcava o ritmo da vila.
Pela ladeira, o vaivém era constante. As mulheres desciam e subiam a passo ritmado, equilibrando na cabeça os alguidares de barro a caminho da Bica. O som dos seus tamancos no piso de pedra misturava-se com as gargalhadas e as conversas animadas dos homens que se acotovelavam à porta da taberna. Lá dentro, o aconchego vinha do calor e do fumo da cozinha, onde os petiscos ao fogão apuravam lentamente.
Sentado no rebordo de pedra do passeio, Zé da Horta puxava do seu canivete de mola. Com movimentos lentos e quase ritualísticos, roçava a lâmina de metal na rocha calcária, escavando mais um sulco entre as dezenas que já cobriam a pedra.
Guardas essa faca para o casqueiro ou para a linguiça, Zé? — gracejou o Quedas, ao pousar dois copos de vinho tinto sobre a ombreira da porta.
Serve para o pão, para o toucinho e para o que mais me der nos cascos — respondeu Zé, sem levantar os olhos da pedra, sentindo o fio da lâmina a ficar fino como uma folha de papel.
Ao seu lado, o tom da conversa subia de tom. O vinho da talha aquecia os ânimos e uma palavra mal medida sobre uma dívida antiga acendeu o pavio. O que começara por ser uma partilha de farnel transformou-se num silêncio tenso. O mesmo metal que momentos antes cortava o pão na fraternidade da taberna reluziu ao Sol, num gesto brusco de honra ferida.
Houve um grito, um sobressalto na ladeira, e o chão da entrada manchou-se de vermelho antes que alguém pudesse travar a fúria do momento. As lavadeiras travaram o seu passo calaram o seu burburinho, e a rua engoliu a desavença num sopro de poeira e medo.
Anos mais tarde, a taberna fechou e o Quedas tornou-se apenas uma saudade contada pelos mais velhos. A ladeira deixou de ser a entrada principal da vila e o silêncio instalou-se nas ruas. Mas ali, defronte à antiga porta, as duas pedras continuam marcadas pelos sulcos fundos das lâminas — cicatrizes de ferro e sangue de uma Alvalade antiga, onde a vida e a morte se afiavam no mesmo passeio.
_Luís Pedro Ramos

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