Alvalade Romana…

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As terras de Alvalade no período Romano eram, à semelhança do que acontecia em grande parte do Alentejo, povoadas de azinheiras e sobreiros, mas também medronheiros, loureiros, zambujeiros, urze branca, entre outras espécies vegetais. Na fauna, destacavam-se os javalis, os lobos e os veados, entre outras espécies.

A colonização romana do território alvaladense é atestada, fundamentalmente, pelos diversos vestígios de villae encontrados nas herdades de Conqueiros, Roxo, Ameira, Retorta e Defesa. Contudo, apenas em Conqueiros e na Defesa foram feitas escavações arqueológicas, muito breves, que permitiram somente identificar pequenos sectores relacionados com a parte rústica das explorações. Não se encontraram nem foram procurados vestígios da parte urbana, habitacional, nem os estudos feitos permitiram conhecer a extensão fundiária de cada propriedade.

Em Figueira-de-Ametade (Conqueiros), foram descobertas algumas estruturas nos anos setenta, escavadas inicialmente pelo extinto Grupo de Acção Cultural da Casa do Povo de Alvalade e depois pelo Departamento de Arqueologia do também extinto IPPC, que se supõe serem parte de uma villa, onde se identificou um tanque e um compartimento lateral. Do sítio foram recolhidos vários materiais como cerâmicas (terra sigillata), moedas, fragmentos de ânfora, vidros, uma mó e uma fíbula. O estudo da jazida e dos achados então feito concluiu que a suposta villa esteve ocupada e habitada entre os séculos I e IV da nossa era. Próximo do sítio escavado foi também identificada uma necrópole igualmente de cronologia romana, que forneceu 3 lápides funerárias, posteriormente depositadas na Casa do Povo de Alvalade.

Em finais do século XVIII ou inícios do século XIX, já D. Frei Manuel do Cenáculo faz referência num dos seus manuscritos a um achado do que possivelmente terá também sido uma secção da parte rústica de uma villa, na herdade do Roxo: “(…) No Roxo, uma legoa distante de Alvalade, tem-se descoberto bastantes antiguidades, e pouco à que observei ali o descobrimento de um lagar onde se acharão bagulhos ressequidos de uvas, medalhas e lanternas sepulcraes (lucernas)… he sitio cheio de paredes antigas, tanto da parte do Poente, alem da ribeira de S. Romão, como da parte Oriental. Francisco José Agoas as descobriu juntas em huma sepultura da sua erdade do Roxo, onde tem aparecido bastantes antiguidades “.

Na herdade da Defesa, nos inícios do século passado, foi também descoberta uma sepultura romana. Na Ameira, em 1909, identificou-se um lagar romano em avançado grau de destruição, e no final de 2002 resgatou-se do monte da mesma herdade, um fragmento de uma mó. Em Agosto de 2002, na herdade da Defesa, durante a escavação de um talude no âmbito dos trabalhos de modernização da Linha Ferroviária do Sul (ligação Lisboa-Algarve), surgiram à superfície inúmeros materiais de construção como telhas, tijolos, fragmentos de estuque pintado e de mosaico romano e, também, algumas cerâmicas fragmentadas. Identificou-se ainda uma pequena forja, e as sondagens efectuadas no sítio permitiram encontrar também diversas moedas, alfinetes em osso, uma mó, uma fíbula de arco em bronze e algumas estruturas (dois tanques, dois compartimentos e um piso sem enquadramento), cujos materiais e vestígios apontam, na sua avaliação conjunta, para a existência de uma villa (século III d.C.?). Ainda na herdade da Defesa, mas na margem direita do Sado, em finais de 2002 foi identificado um peso de prensa de um lagar de vinho romano (trazido para a frontaria da Igreja da Misericórdia em 2005, para a frontaria da Misericórdia), e do local onde a peça foi desenterrada surgem, frequentemente, fragmentos de cerâmicas e de materiais de construção que indiciam a presença de estruturas soterradas.

A actividade das villae alvaladenses, tal como ainda hoje se verifica parcialmente em determinadas herdades da freguesia, terá incidido na cultura da vinha, nos cereais, na oliveira, em alguns produtos hortícolas, e na criação de bovinos, suínos, ovinos e caprinos, verificando-se, pela localização dos vestígios, que foram instaladas relativamente próximas das margens do rio Sado que nessa época, nesta freguesia, permitia a navegação de algumas embarcações. Essa localização terá permitido o uso do Sado – reconhecido como uma via fluvial extraordinariamente importante de ligação ao hinterland durante toda a Proto-história, como via de escoamento de parte das produções locais para Alcácer do Sal e daí encaminhadas para outras regiões do Império, mas também para receber produtos importados. Na área de influência e sob o controle territorial de Miróbriga, as produções agro-pecuárias das villae de Alvalade tiveram, certamente, também a antiga cidade romana de Santiago do Cacém como destino natural, quer para consumo interno quer para fins comerciais.

Parece admissível, assim, que a colonização romana das terras alvaladenses possa ter correspondido a um plano estratégico na gestão deste território no âmbito do fenómeno do povoamento rural do Alentejo, considerando as necessidades de consumo e comerciais de Miróbriga no que respeita a produtos agrícolas e pecuários, e a importante ligação desta freguesia com a bacia hidrográfica do Sado em pleno aproveitamento dos excelentes recursos naturais destas terras e da sua localização privilegiada com acesso a algumas vias de comunicação importantes. Disso é exemplo a estrada romana que atravessava a freguesia de Alvalade e que estabelecia a ligação entre Miróbriga e Pax Iulia (Beja), passando por Vipasca (Aljustrel), onde não será difícil imaginar o constante vaivém de comerciantes, mercadorias, produções locais, escravos, servos e soldados. Dessa via, cuja utilização teve continuidade até meados do século XX, subsiste nesta freguesia uma ponte de origem romana situada sobre o antigo leito da Ribeira de Campilhas, embora já sem corresponder ao modelo arquitectónico inicial em virtude das obras e transformações que foi sofrendo ao longo dos tempos, com particular destaque para a presumível reconstrução efectuada no século XVI.

_Luís Pedro Ramos

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