Um fantasma de alvenaria…

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O edifício do largo da Estação dos Caminhos de Ferro de Alvalade, construído por um tal Luis Serrano no primeiro quartel do séc. XX, está em ruína avançada. Apesar da sua decadência, ainda conserva os traços altivos e característicos de uma antiga casa senhorial. As janelas altas, agora sem vidros, observam o vazio como olhos cegos que guardam a memória de uma época que já não volta… O rés-do-chão repousa entaipado num silêncio pesado, há muito esquecido do tempo em que vibrava com o eco do movimento da estação de comboios, que lhe deu vida com uma taberna e mercearia. Por ali, o ar andava perfumado pelo aroma rude do bacalhau salgado, pelo calor do café fresco e pelo travo do vinho maduro. Na penumbra do balcão de madeira gasta, homens de mãos calosas e rostos sulcados pelo sol discutiam a dureza dos dias, enquanto as mulheres, sussurrando cumplicidades entre pesagens de mercearias vendidas a granel, teciam a alma das suas vidas.
O tabuado do piso do primeiro andar, agora coberto de pó e folhas secas, range como um lamento a cada sopro de ar que atravessa o esqueleto do edifício… Ainda conheceu o resmalhar dos mapas manuseados pelos engenheiros nos alvores do plano de rega da região. Acomodou viajantes de passagem e caixeiros-viajantes com malas cheias de mundos e sonhos.
Hoje, o edifício é apenas um fantasma de alvenaria… Entregue a uma ruína acelerada, o outono eterno instalou-se nos seus corredores vazios restando apenas a melancolia de um gigante que assiste, impotente, à sua própria morte…
_Luís Pedro Ramos

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