Olhar para esta fotografia é abrir as portas de um tempo suspenso, onde a vida acontecia de outra forma, despida da pressa cinzenta dos dias de hoje. Nestes tempos, o Cine-Alvalade não era apenas um edifício físico, mas sim o coração pulsante da vila. Ir ao cinema era um ritual sagrado… Havia uma solenidade bonita no gesto de escolher a melhor roupa para ir ver um badalado filme de Hollywood, um espetáculo de variedades ou participar numa cerimónia de uma inauguração importante para a vila. Os homens caminhavam orgulhosos, com as suas melhores roupas, incluindo fatos bem engomados e gravatas impecáveis. Ao seu lado, as senhoras e as raparigas pareciam flutuar em bonitos vestidos que traziam cor e alegria às ruas da vila. Uma simples exibição de um filme recente com as maiores estrelas de cinema nacionais e internacionais transformava-se, por magia e respeito à arte, numa noite de glamour e elegância. Ali, enquanto a sala não mergulhava na escuridão profunda de um céu sem estrelas, trocavam-se olhares sedutores, sorrisos cúmplices e alguns galanteios sussurrados timidamente. Havia uma cumplicidade partilhada no escuro, um suspiro coletivo e um bater de palmas que unia casais, namorados, pretendentes, vizinhos e desconhecidos numa única e vibrante moldura humana…
Apesar da conjuntura política nacional adversa e castradora, a luz do projetor transformava a sala do cinema numa janela sem fronteiras, onde o mais anónimo alvaladense esquecia as amarras do isolamento para acolher o mundo inteiro com os olhos. Cada noite naquele auditório era um momento único e especial.
Os tempos mudaram e o progresso trouxe consigo um isolamento disfarçado de comodidade. Cada lar transformou-se numa fortaleza de conforto, onde a oferta diversa de ecrãs e outras distrações fazem-nos reféns do sofá. Já poucos sentem o apelo de cruzar a porta de casa… Com essa retirada silenciosa, as ruas perderam o burburinho, os bancos do jardim perderam os olhares e a vila viu arrefecer a fogueira viva do seu convívio entre gerações…
_Luís Pedro Ramos
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