As portas encostadas…

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Quem não se recorda das portas encostadas ou fechadas apenas com o trinco que se abria com um atilho do lado de fora? Nesse tempo, os dias não se fechavam à chave. A porta encostada não era um descuido; era um convite silencioso, uma declaração de confiança entre vizinhos.
No interior havia sempre uma enfusa de barro com água fresca e uma cadeira com fundo de buinho para quem vinha da rua. A vizinhança funcionava como uma extensão da própria família e dividia-se o prato de migas ou o punhado de azeitonas com a mesma naturalidade com que se partilhava o cansaço dos trabalhos do campo.
Hoje, essas portas trancaram-se contra o tempo e a modernidade mudou a paisagem humana de Alvalade. As fechaduras de alta segurança substituíram o velho atilho de cordel, guardando casas muitas vezes vazias de gente e de estórias. Na memória de quem viveu esses tempos, a imagem daquela porta apenas encostada permanece como um símbolo destacado de uma terra que, mesmo na sua pobreza material, era infinitamente rica em dignidade, partilha e paz…
_Luís Pedro Ramos

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