Noites de cante e lamentos…

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Longe vão os tempos das noites infinitas nas ruas e nas tabernas de Alvalade quando se juntavam grupos de homens para desafiar a solidão dos dias. Ali, entregavam-se ao cante puro, um lamento sem o amparo de qualquer instrumento musical, que rasgava o breu da noite. Erguia-se, então, a dureza das vozes masculinas, calejadas pela terra e pelo vento, como um eco áspero do solo que pisavam.
Os seus temas versavam sobre o desalento diário, as dificuldades severas do trabalho de sol a sol que lhes vergava os ombros e o sustento sempre incerto e quase milagroso das suas famílias. Cada estrofe sangrava um desabafo partilhado, um fardo pesado que se tornava mais leve quando cantado em conjunto. Eram vozes profundas, carregadas de uma saudade sem nome, que entoavam a melancolia e as dores de existências esquecidas pelo progresso. Lamentos que pareciam gravados no próprio ar e memórias vivas que ficaram, para sempre, impregnadas nas paredes brancas de cal e lágrimas das ruas velhas desta vila…
_Luís Pedro Ramos

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