Chão sagrado…

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Caminhar por estes corredores de silêncio não é um acto de solidão, mas um reencontro… Neste cemitério repousam os nossos antepassados, os mesmos que, com mãos calosas e passos firmes, desenharam o contorno das ruas da vila que hoje calcamos e semearam a identidade que nos define. Cada lápide é uma página de uma crónica maior, escrita a suor e afecto. Aqui descansam os velhos trabalhadores rurais, as lavadeiras de braços fortes, as ceifeiras, as costureiras, as caiadeiras, os maiorais de gado, os sapateiros, os abegões, os alfaiates, os taberneiros, os ganhões, os hortelões, os seareiros, os lagareiros, os moageiros, os ferradores, os taipeiros, os jornaleiros, os carpinteiros, os cadeireiros, os tosquiadores, os ferreiros, os barbeiros, os pastores, os comerciantes de palavra honrada e os contadores de estórias que animavam as noites nas tabernas…

Homens e mulheres que viveram Alvalade na sua essência mais pura, quando o tempo corria mais devagar e a vida se media pela palavra dada e pelo calor do abraço. Olhar para estes nomes gravados na pedra, muitos já gastos pela erosão dos anos, faz-nos regressar à infância. Lembramo-nos dos rostos que víamos à janela e dos conselhos dados à porta de casa. Eles partiram, mas deixaram a sua marca invisível nas paredes brancas da vila e no orgulho da nossa gente. O cemitério não é um lugar do esquecimento, mas a nossa raiz mais profunda. Visitar os nossos antepassados é resgatar a nossa própria história e garantir que o ontem continua vivo no coração do hoje. Enquanto houver memória, Alvalade nunca esquecerá quem a fez nascer e lhe deu filhos e vida…

_Luís Pedro Ramos

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