O Barateiro e o Barbeiro…

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Na pacatez da antiga rua 31 de Maio de 1834, o tempo hoje parece correr mais lento embalado pelas saudades de uma era não muito distante. Ali, onde o sol ainda afaga as fachadas brancas com barras azuis, duas almas singulares desenharam outrora parte do coração pulsante da rua. O compasso da vida desacelerava na retrosaria de José Inácio Benvinda ‘O Barateiro’ ou o eterno “Porra Vizinha”, onde vendia roupas, fazendas ao metro, calçado, botões, linhas, agulhas e muitos outros artigos, tantas vezes registadas no caderno dos fiados e dos cães…
Do outro lado da rua, o barbeiro Manuel Estanislau dos Ramos manejava a navalha e a tesoura com a precisão e a paciência de um artista, numa casa que era também um espaço onde se contavam e ouviam as novidades da terra ao mesmo tempo que vendia alguns títulos de jornais com as noticias do mundo e do desporto. Ali, ficaram célebres também as tabelas com os resultados dos jogos e a classificação do F.C. Alvaladense que construía e disponibilizava todas as semanas.
Os dois vizinhos eram parte da identidade viva da rua, homens de um carisma moldado na honestidade e numa bondade desinteressada que o tempo teima em esquecer. O outono da vida levou-os, cumprindo o ciclo natural da terra, mas a sua ausência não trouxe o esquecimento.
Hoje, quem caminha por aquele sector da rua, jura ainda ouvir o eco das risadas e das piadas do Zé das Neves, como também era conhecido, e o rip-rip das tesouras do Manel Ramos. As suas memórias continuam vivas, guardadas no peito da população mais velha que ainda recusa deixar apagar a luz deste duo singular…

_Luís Pedro Ramos

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