O velho sino da Misericódia…

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Há muito que o sino da Igreja da Misericórdia se calou… O velho sineiro, cujas mãos calejadas conheciam o segredo de cada toque, já partiu. E com ele, levou a linguagem do céu. Já não há o bronze a ferir o ar para anunciar a vida ou a despedida; há apenas o peso de uma mudez que ninguém se atreve a quebrar. Tornou-se um objeto decorativo, vestido de azinhavre e esquecimento. Uma relíquia de um tempo em que as pessoas ainda olhavam para o céu, à espera de um sinal. Agora, resta apenas o vento a assobiar nos vãos do campanário, um som órfão que nos recorda, a cada instante, que a alma do lugar partiu sem se despedir, deixando-nos a sós com este silêncio que, de tão longo, já se tornou parte de nós.
A vila continua a crescer, mas tornou-se mais surda. E o sino, mudo, espera que alguém lhe devolva a voz para lembrar a Alvalade que o céu ainda importa…
_Luís Pedro Ramos

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