A Fonte de Nossa Senhora, testemunha silenciosa da passagem do tempo…

Início » História » Curiosidades » A Fonte de Nossa Senhora, testemunha silenciosa da passagem do tempo…

Sem comentários

O vento suave da tarde ainda soprava as mesmas memórias no vale de Campilhas, murmurando entre os juncos como quem conta um segredo ao leito do rio. Ali, às portas da vila, repousava a Fonte de Nossa Senhora, um coração de água fresca que por séculos dera vida aos caminhos de Alvalade.

Houve um tempo em que o vale não conhecia o silêncio. Logo ao romper da alvorada, os carreiros e veredas traçados no chão de terra enchiam-se com o vaivém das mulheres da terra. Com cântaros ao ombro e trouxas de roupa à cabeça, desciam do sul da vila em busca da generosidade daquela nascente mui antiga, que desafiava até os estios mais rigorosos.

À beira do velho poço, a sagacidade feminina moldara a vida comunitária. Uma fiada de pedras toscas, mal alinhadas sobre plintos improvisados, tornara-se um bom lavadouro público. Ali, entre o chiar do sabão e o ritmado bater da roupa molhada contra a pedra, trocavam-se as novidades, ria-se dos mexericos do povo e embalavam-se os desgostos da vida. A fonte era o pulso social de Alvalade, um lugar onde a água limpa lavava o pano e purificava a alma da vila…

Mas a água da Fonte de Nossa Senhora também conhecera dias de poeira e sobressalto. Os mais velhos ainda contavam como, a 17 de julho de 1833, sob o sol impiedoso de uma canícula abrasadora, o vale assistira à chegada das tropas do Duque da Terceira. Homens e cavalos, exaustos da marcha vinda do Algarve em plena guerra civil entre liberais e absolutistas, ali se acotovelaram para dessedentar a garganta antes do avanço sobre Lisboa. Foi um dia pesado, de má memória para a vila, em que o canto sereno da nascente deu lugar ao retinir das espadas e ao tropel da guerra.

Os anos, porém, fluíram tão céleres quanto as águas da ribeira de Campilhas. Com a chegada da Fonte e Lavadouro da Bica e, mais tarde, do progresso que trouxe a água às torneiras das casas, os passos pelos carreiros de terra em direção à Fonte de Nossa Senhora foram escasseando. O som alegre do bater da roupa nas lajes desvaneceu-se na espuma do tempo, e o lavadouro acabou por ruir, engolido pelo esquecimento.

Hoje, no vale calmo, resta apenas a carcaça humilde do velho poço. A vila, que durante séculos ali bebeu a vida, seguiu o seu caminho e deixou a fonte entregue à sua sorte. Contudo, quem por ali passa ao fim da tarde, quando a luz do sol doura a vegetação do vale, quase pode ouvir o eco distante das risadas das lavadeiras e o murmúrio da água que, em silêncio, continua a correr para ninguém…

_Luís Pedro Ramos

Deixe um comentário

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.