O largo do Vasco…

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O Largo do Vasco, hoje, é um deserto de silêncios onde o tempo parece ter estancado. Nas esquinas, o brisa serena que percorre a vila sussurra memórias de um tempo que a modernidade apagou, deixando apenas a melancolia dos dias idos. Por ali ainda sobrevivem as paredes outrora vivas do Café Orquídea, do Café do Espanhol e as memórias do Café do Zé Duque, onde o aroma do café fresco misturava-se com o eco das conversas vibrantes. O Sr. Baião, farmacêutico afável e cordato, que mereceu a estima de toda a vila, é agora também uma lembrança diluída num largo que perdeu a alma e a vida que já teve.
No topo central, a poeira e uma nova loja assentaram sobre o local da antiga e afamada oficina de albardeiro do Sr. Maximino, onde já não se ouve o bater rítmico do couro, nem o cheiro a palha seca das albardas e atavios que vestiam as cavalgaduras da terra. Até o prédio maior, que foi mercearia, talho e café de Vasco Silva (que emprestou o nome ao largo) e outrora local de grande procura, ergue-se agora como um monumento silencioso a uma época de agruras e severas dificuldades na freguesia. O Café do Chico deu-lhe continuidade mas há muito que fechou portas, restando-lhe apenas o vazio e a poeira que dança na luz do entardecer. Ao lado, o café e restaurante de Manuel Pereira erguia-se como um dos principais refúgios do largo. O aroma dos saborosos e afamados pratos e petiscos da D. Júlia espalhava-se pelo ar, como um convite irrecusável que ao longo dos anos saciou o corpo e a alma de incontáveis comensais à procura de aconchego e sabor.
O largo ainda fala e recorda-nos os tempos em que ali se faziam as “praças” ou “ajustes”, o mercado da carne humana e do suor sob o sol ardente. Homens de olhar baixo e mãos calejadas esperavam pelos lavradores ou pelos feitores. Ali se discutia o valor da jorna, o pão e a cama: “a de comer” e “de albergaria” que serviam como moedas de troca para o trabalhador, abatendo-se no pão o direito de dormir sob um teto. Naquele chão, sentavam-se os “ratinhos”, vindos das Beiras com a fome na algibeira; os “algarvios”, que subiam o sul em busca de sustento; e os “homens”, os ceifeiros alentejanos da terra, todos iguais na força do braço, mas tragicamente divididos pelas alcunhas da miséria. Era o tempo negro da nossa história, onde o homem do campo era despudoradamente esmagado pela pobreza e pelo desprezo dos donos das herdades.
O Largo do Vasco já não pulsa com a vida de outrora. O frenesim diário extinguiu-se, transformando-se num crepúsculo bucólico onde a própria terra parece pedir perdão por um certo passado. Quem passa por ele e fecha os olhos, ainda consegue ouvir, no assobio do vento trazido da várzea, o eco dorido daqueles que ali deixaram a sua juventude, o seu suor e as suas vidas, agora sepultados sob o manto cinzento do esquecimento…
_Luís Pedro Ramos

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