Início » Memórias sociais » O lavadouro da Bica…
Sem comentários

No lavadouro público da Bica, o tempo parece ter estancado entre as pedras frias e o cheiro eterno a sabão azul… Sob a luz forte dos dias e terna do crepúsculo, as pedras desgastadas do tanque guardam um silêncio pesado. Aqui, neste recanto escondido de Alvalade, desfilaram sucessivas gerações de mulheres alvaladenses. Vinham em romaria diária cumprir a pesada e inevitável tarefa de lavar a roupa de casa à mão. O lavadouro era o seu cenário rústico, um confessionário de cimento e pedra onde a dureza da vida se diluía na espuma branca da água.
Mãos fortes e calejadas pela vida gastaram estas pedras de tanto lavar e esfregar roupa. Mãos que carregavam o peso do mundo, mas que na água encontravam um compasso rítmico, quase musical, de esforço e partilha. Entre o bater vigoroso dos lençóis e o esfregar doloroso nos sulcos da pedra, estas mulheres deixaram aqui parte das suas próprias vidas. Entregaram a sua juventude ao frio da água de inverno e à humidade abafada do verão.
Hoje, resta a melancolia do tanque quase vazio e o reflexo estático de um céu que já pouco ouve o ruído da água e da roupa molhada batida nas pedras. O lavadouro da Bica sobrevive como um monumento bucólico à memória dessas mulheres. Um altar esquecido onde a rotina dura se transformou em história, e onde a alma de Alvalade ainda chora, baixinho, as vidas que a água do tanque conheceu e já partiram…
Comentários recentes