A Santa Casa da Misericórdia de Alvalade…

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O dia 4 de junho de 1861 assinala uma das páginas mais sombrias da história de Alvalade. Nessa data, o Governo Civil de Beja decretava a extinção da Santa Casa da Misericórdia de Alvalade, uma instituição secular fundada em meados do século XVI.

Socorrer os pobres, os doentes e os encarcerados, bem como velar pelo sufrágio das suas almas — democratizando o amparo e a solidariedade numa sociedade profundamente marcada por gritantes assimetrias sociais —, constituía a missão fundamental consagrada no “Compromisso” das Misericórdias, corporizada nas suas catorze obras de misericórdia espirituais e corporais. Para cumprir tão nobre desiderato, a Santa Casa da Misericórdia de Alvalade dispunha de rendimentos próprios, provenientes maioritariamente de foros de prédios urbanos e rústicos integrados no seu património, em grande medida resultantes de legados testamentários. O códice de inventário da instituição, datado de 1854, descreve minuciosamente todos os bens que compunham o seu acervo à época, identificando igualmente os titulares dos respetivos contratos de aforamento.

A respeito da Igreja da Misericórdia — cuja conclusão terá ocorrido em 1570, segundo a inscrição visível na lápide sobre o seu portal —, o referido códice legou-nos este precioso registo:

“(…) Hum edificio da igreja da Misericórdia situado na praça d’esta villa, o quall consta da referida igreja, Sachristia, Casa do Despacho e quintal com duas oliveiras, e parte confronta pelo Norte com a Rua da Cruz, Nascente com a Travessa do (…) do Ferrador, Sul com a Rua das Estalagens, e Poente com a Praça publica d’esta villa.”

Ao longo de mais de três séculos, a Santa Casa da Misericórdia de Alvalade — que manteve também em funcionamento um modesto hospital e albergue — prestou serviços inestimáveis ao concelho. Contudo, apesar de ostentar bens e rendimentos em tese suficientes para assegurar a continuidade da sua missão, a instituição não resistiu aos abalos sociais e políticos que moldaram o século XIX. Extinta em 1861, viu o seu património ser absorvido pela Casa Pia de Beja. Perdeu-se assim, há mais de século e meio, uma valiosa instituição multissecular que, ainda hoje, muito prestigiaria e enobreceria a nossa freguesia.

_Luís Pedro Ramos

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