Nas ruas antigas de Alvalade, o tempo por vezes parece caminhar mais devagar, guardando ecos de um passado que a modernidade teima em apagar. Entre o reboliço dos automóveis e a pressa dos transeuntes, há um som que hoje raramente se escuta… O som melódico e nostálgico da gaita de beiços, que anunciava a chegada do amola-tesouras. Figura mítica e bucólica, ele trazia consigo não apenas a roda mecânica capaz de devolver o gume ao aço, mas também o vagar de uma época em que as coisas se consertavam em vez de se deitarem fora.
Com a sua bicicleta característica, cruzava as manhãs soalheiras da vila transformando o metal gasto em lâminas prontas para novas histórias. Não haverá rua em Alvalade que não tenha conhecido os seus passos. O trinado da sua flauta de Pã entrava pelos postigos e janelas abertas, fazendo com que as donas de casa assomassem à porta, trazendo tesouras e facas sedentas de amolação. Enquanto as faíscas saltavam da pedra de esmeril, acendendo um fogo breve no cinzento do passeio, trocavam-se conversas sem pressa sobre o tempo, a vida e os vizinhos. Hoje, estes artesãos do quotidiano são cada vez mais raros, quase invisíveis na nossa paisagem urbana. Tornaram-se guardiões de uma era esquecida e silhuetas românticas de uma Alvalade que se vai desvanecendo…
_Luís Pedro Ramos
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