Quando a ribeira se enchia de vida para a lavagem das tripas…

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Ao romper da manhã, os campos de Alvalade despertavam com o murmúrio cúmplice das mulheres da casa e das vizinhas. Unidas pelo laço sagrado da entreajuda, caminhavam em cortejo pelos caminhos de terra batida da várzea até à ribeira…
À cabeça, com o aprumo e a graça de estátuas antigas, equilibravam pesados alguidares de barro ou zinco que ecoavam o tinir da jornada. Ali, onde a água corria límpida e alheia ao tempo, ajoelhavam-se ou dobravam-se na margem como quem se entrega a uma prece. Desafiando o frio que lhes enregelava os dedos, as mãos sábias operavam a magia da tradição; com o auxílio delicado de um canudo ou de um pau, viravam as tripas de porco do avesso, despindo-as com uma paciência infinita.
Sob o embalo do restolhar da água, raspavam-nas e lavavam-nas vezes sem conta, deixando que o sal e o vinagre purificassem o que a terra daria em sustento. Uma vez limpas e translúcidas, como rendas lavadas pela corrente, as tripas recolhiam ao calor do lar. No aconchego da cozinha, o tempo suspendia-se enquanto a tripa se apurava e ganhava a alma dos campos alvaladenses, pronta para abraçar e receber a carne temperada que perpetuaria o sabor daquela matança.
Daqui nasciam as linguiças e os chouriços que mais tarde iriam chorar no interior do chopão, perfumando a casa com um dos aromas singulares da nossa identidade alentejana…
Obs: a fotografia documenta uma mulher alvaladense nos idos anos 80, a lavar tripas no rio Sado.
_Luís Pedro Ramos

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