O dia de São Marcos e a benção do gado em Alvalade…

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i_matrizaNa Igreja Matriz de Alvalade, pouco acima do portal e do lado do evangelho, existiu outrora um altar dedicado a São Marcos. A sua imagem, esculpida em madeira, assentava numa peanha em forma de concha, ladeada pelas pinturas a óleo dos evangelistas São Mateus e São João. Esse retábulo primitivo, devorado pelo tempo e pela podridão da madeira, acabou por se desconjuntar. Dele restou apenas a escultura do santo patrono, mais tarde recolocada na banqueta do novo altar que o substituiu, dedicado a Nossa Senhora do Rosário.

Era perante esse antigo altar que se celebrava uma das festividades mais singulares da vila, marcando o enlevo da população dedicada à pastorícia e à criação de gado vacum. No dia 25 de abril — dia de São Marcos —, quase todo o rebanho da freguesia, com especial destaque para os bovinos e caprinos, afluía à sede para homenagear o seu santo protetor. A preparação começava muito antes: o maioral da vacada escolhida para aquele ano selecionava com antecedência a rês principal, amansando-a até ao ponto de esta conseguir entrar no templo, cumprir as três vénias protocolares perante a imagem e sair sem alarde nem sobressaltos.

Por volta do meio-dia, o gado espalhava-se pelo adro e pelos arredores da vila. Ao sinal do sino, a vacada escolhida aproximava-se do portal da igreja, que se encontrava apinhada de fiéis. Com a chegada do rebanho, a multidão erguia-se e formava uma mole humana densa e em absoluto silêncio, deixando apenas um estreito corredor para a passagem do cortejo. Vestido de pelico e safões, de chapéu braguês na mão esquerda e cacheira na direita, o maioral entrava solenemente na matriz ao lado do seu boi. O animal, desconfiado com o eco oco dos seus passos sobre o soalho de madeira, caminhava lentamente até ao altar. Ali chegado, aproximava o focinho da imagem de São Marcos, cheirando-o com profundas e ruidosas inspirações e expirações, num movimento ritmado de cabeça.

Nesse instante, a assistência continha a respiração num sacrifício de silêncio quase sagrado, temendo estragar o desenlace do drama. O momento apoteótico ocorria quando o nobre bovino, incapaz de conter os resíduos da digestão do restolho comido na véspera, ali mesmo, em pleno altar, depositava a sua oferenda natural. Entrava então em cena o popular «tesoureiro da bosta», munido de alcofa e pá para o que desse e viesse, que recolhia prontamente o depósito com mestria. O silêncio, até aí severamente reprimido, rompia-se numa gargalhada geral e estrondosa que afugentava o animal, fazendo-o sair com o maioral a um passo bem mais pressuroso do que aquele com que entrara. O «tesoureiro» convertia-se no bode expiatório da festa, alvo de chacota e ditos picarescos aos quais respondia, entre risos, ameaçando oferecer aos presentes o conteúdo da sua alcofa.

Nesse dia, o boi gozava de uma ração farta e, ao longo de todo o ano, passava a ser respeitado por toda a vila como «o boi do santo». O maioral e o seu ajudante, além da espórtula combinada, eram compensados com um lauto banquete.

À tarde, a festa mudava de cenário. A imagem de São Marcos era trasladada para o limite do adro, onde o pároco ou os beneficiados lançavam água benta sobre a longa fila de animais que ia passando em desfile ritual. Porém, quando chegava a vez do gado caprino, a solenidade dava lugar ao caos: dois ou três festeiros, estrategicamente escondidos em cantos afastados, deitavam a correr foguetes rasteiros. O estouro provocava uma debandada geral. Tomadas de pânico, as cabras espalhavam-se por todo o lado em saltos desordenados — galgavam telhados, invadiam casas, metiam-se pelas searas e abalroavam-se umas às outras. Enquanto uns praguejavam a tentar expulsar os intrusos e salvar as culturas, a maioria da população desopilava o fígado, rindo a bom rir com a confusão.

Estes episódios pitorescos alimentavam as conversas, serões e reuniões ao longo de muitos meses, servindo de apetite e expetativa para a festa do ano seguinte. Com o decorrer do tempo, contudo, a hierarquia eclesiástica começou a impor crescentes restrições a estas práticas profanas dentro dos edifícios sagrados. Repudiando a turbulência, o ruído dos foguetes e, acima de tudo, a conspurcação do altar pelos animais, as autoridades religiosas acabaram por proibir a entrada das reses no interior da igreja matriz. O ritual, forçado a confinar-se exclusivamente ao adro e às ruas circundantes, foi perdendo gradualmente o seu caráter teatral e mítico até se extinguir na memória dos mais antigos.

_Luís Pedro Ramos/Pe. Jorge de Oliveira

 

 

 

 

 

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