Achados perdidos entre 1970 e 2021…

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5 Comentários

degrausEm abril de 1970, durante os trabalhos de preparação do terreno para a construção dos degraus de acesso ao adro da Igreja Matriz de Alvalade (na imagem), foi descoberto um esqueleto humano. O indivíduo fora sepultado com uma taça de prata e segurava, numa das mãos, um pequeno saco contendo uma faca e um garfo, ambos com cabos de osso. Este achado é, ainda hoje, corroborado por testemunhas oculares que viram as peças e que conhecem o seu destino. Mais recentemente, em pleno largo da igreja, as obras de reconstrução de um imóvel revelaram dois novos enterramentos humanos. Contudo, não houve qualquer registo destes vestígios nem o devido acompanhamento arqueológico da empreitada.

A perda de memória histórica repetiu-se na Rua Dr. António Guerreiro Fernandes, no coração do centro histórico, aquando da abertura de uma vala numa intervenção da EDP. Na altura, foi descoberto um tesouro monetário: mais de 70 moedas de prata cunhadas no século XVI, resguardadas no interior de um pote. O operário que as encontrou guardou-as e acabou por vendê-las ao desbarato. Tratou-se de mais um achado fortuito perdido devido à ausência de fiscalização arqueológica.
Outro episódio singular ocorreu no decurso da reabilitação do Monte do Roxo. Uma cantaria de origem romana, posteriormente reutilizada no período visigótico, foi resgatada dos solos da herdade e oferecida pelos proprietários ao Núcleo de Arqueologia de Alvalade. Todavia, enquanto uma equipa da Câmara Municipal se deslocava ao local para recolher a peça, os donos mudaram de ideias e enviaram-na para Ferreira do Alentejo. O desfecho traduziu-se no extravio de um elemento valioso, num sítio de manifesto interesse histórico há muito referenciado.
Os relatos de delapidação estendem-se também a Conqueiros. Uma lápide com uma inscrição romana inédita e outros artefactos de relevo, que se encontravam guardados no monte há vários anos, terão sido atirados a uma ribeira, num alegado ato de retaliação contra um dos proprietários locais.
Estes episódios ilustram a extrema fragilidade e a delapidação sistemática a que o património arqueológico de Alvalade tem sido votado. Entre 1970 e 2014, os achados arqueológicos documentados no território teriam escala para preencher o espaço de duas ou três igrejas da Misericórdia. Contudo, a maioria perdeu-se ou tomou o rumo de outras paragens…

_Luís Pedro Ramos

5 Respostas a Achados perdidos entre 1970 e 2021…

  1. Idálio Nunes   9 de Julho de 2014 at 11:53

    Como é possível situação tão lamentável? O acompanhamento arqueológico e antropológico de obras, este último no caso de aparecer material osteológico, são obrigatórios por lei. Alvalade, não é – infelizmente – caso único… Falta bom senso, seriedade e, direi mesmo, inteligência. Que o futuro nos traga novos ventos e não esqueçamos que todos somos responsáveis quando se trata de defender e valorizar o Património – em casos destes devem-se avisar as autoridades competentes. Sem receios e sem demoras. Abraço de Grândola para Alvalade.

    Idálio Nunes

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  2. José do Rosário   9 de Julho de 2014 at 18:02

    Caro Luís: ao longo do tempo e do meu tempo, sempre foram aparecendo peças de algum (ou muito) valor, umas praticamente destruídas, outras levadas para Lisboa e outros sítios. Há pouco tempo foi-me comunicado a história de um pote enorme que serviu dezenas de anos para adoçar azeitonas, mas que depois foi sendo feito em fanicos e desapareceu.
    Em Alvalade dá-se pouco valor ao património antigo. Decerto vistes, o estado em que estava a ponte Romana…..num total abandono. Alguém publicou a imagem e no outro dia, foi limpa!….

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  3. admin   11 de Julho de 2014 at 14:58

    Com uma equipa no terreno devidamente estruturada e estabilizada, que inclua um arqueólogo, muitas destas situações nunca teriam acontecido. São um prejuízo enorme para Alvalade e para o património do concelho.
    _LPR

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  4. Carmo Candeias   15 de Julho de 2014 at 0:14

    Que noticia tão triste… onde andam as entidades competentes para evitarem essa falta de respeito pela história de Alvalade? Sinto muito Luis que tanta coisa má esteja a acontecer a essa Terra que cada vez mais dá sinais que debaixo do seu solo está a verdadeira história dessa Terra tão pequena mas de elevada riqueza arqueológica.
    E a que vai sendo encontrada vai saindo para lugares alheios aos conteúdos, sem que alguém ponha termo a essa falta de respeito pela Terra.
    Que haja alguém que algo faça para que tudo o que aí seja encontrado seja justamente exposto na própria Terra a quem tudo pertence.
    Obrigado pela noticia. Beijinhos

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  5. Matilde Oliveira   23 de Julho de 2014 at 21:44

    Lamento muito tudo isso porque Alvalade deve ter ainda muita história para descobrir.

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