Ruas com alma…

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Pisar as ruas do centro histórico de Alvalade é percorrer uma geografia feita de memórias e de vidas sobrepostas. Quantas gerações por aqui passaram, acordando estas ruelas com o rumor dos seus afazeres e o pulsar de uma vida comunitária vibrante? Por estes caminhos caminharam gerações de alvaladenses: homens de chapéu, colete e trajes de trabalho, mulheres envoltas em xailes de lã, rostos gravados pelo sol do campo, mas sustentados por uma força e uma resiliência exemplares.

Nesses tempos de portas abertas de par em par, a rua funcionava como uma extensão natural da própria casa. O convívio nascia no limiar da soleira e alimentava-se de uma entreajuda sincera e sem artifícios. A solidariedade da vizinhança traduzia-se nas pequenas grandes coisas do quotidiano: na tigela de caldo que se levava a quem estava doente, na partilha generosa dos produtos da horta, do sal ou dos temperos que faltavam na panela, e na vigilância carinhosa com que os mais velhos guardavam a brincadeira dos mais novos, donos e senhores de um espaço público que era de todos.

Era uma comunidade tecida por um conhecimento profundo do outro — conheciam-se as famílias pela alcunha, o andar pelo bater do calçado no piso das ruas e o estado de espírito pelo tom do cumprimento.

Hoje, ao percorrermos estes arruamentos, o silêncio de algumas habitações desocupadas interpela-nos e faz-nos refletir. Lembra-nos que a identidade do núcleo antigo de Alvalade não se esgota no património edificado, nas fachadas caiadas de branco ou no vivo colorido das suas molduras. O coração de Alvalade bate na memória viva das suas gentes e no compromisso de preservar a alma humana que deu sentido a cada uma destas ruas…

_Luís Pedro Ramos

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