Atrás dos Quintais, o miradouro esquecido de Alvalade…

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A designação popular diz tudo sobre o abandono e a desconsideração a que este espaço tem votado o tempo — a Rua Atrás dos Quintais, assim batizada pela voz do povo na ausência de qualquer topónimo oficial. Durante décadas, não passou de uma servidão pública espremida contra as traseiras da Rua de Lisboa e de parte da Rua da Cruz.
A escarpa sobranceira servia de tristemente célebre vazadouro para o lixo e os dejetos humanos dos habitantes do centro histórico, numa época em que a vila desconhecia o saneamento básico e a recolha regular de resíduos. Era uma artéria sem nome nem placa, perpetuamente marginalizada e habitada, quase em exclusivo, por gente humilde de escassas posses, cujas vidas se desenrolavam à margem da atenção municipal.

Paradoxalmente, e como se a natureza quisesse redimir o esquecimento humano, este arruamento conserva intacto todo o seu extraordinário potencial de miradouro. Erguida como uma varanda natural sobre o vale do Sado, a rua oferece uma perspetiva ampla e desafogada onde o olhar se perde e alcança a Mimosa, o Monte da Ameira, a vetusta Ponte Romana, o histórico Campo de Experiências do Posto de Culturas Regadas, as hortas ribeirinhas e o traçado moderno da nova via férrea — um miradouro esquecido que aguarda, por fim, o olhar de quem saiba redescobrir a alma de Alvalade.

_Luís Pedro Ramos

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