O caldo do Espírito Santo (Conto)…

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O sol de outono dourava o piso rude da Rua Quente (actual rua da Cruz), projetando sombras longas sobre a parede de taipa do Hospital do Espírito Santo. Sentado no poial de pedra, junto ao portal, o mordomo da confraria, com o olhar cansado mas atento, via aproximar-se um vulto que caminhava a passos lentos e trôpegos.
Era mais um peregrino… Trazia as vestes castigadas pela poeira dos caminhos do sul, o chapéu de abas largas adornado com uma vieira de metal e o bordão a ditar o ritmo da fadiga. Ao chegar junto ao mordomo, o homem deixou-se cair, exausto.
Deus vos salve, irmão — murmurou o caminhante, com a voz gasta pela sede. — Venho das terras de Garb e busco o apadrinhamento de Santiago Maior. Dariam tecto a um pobre pecador?
O mordomo do hospital acenou com a cabeça e estendeu-lhe a mão, ajudando-o a erguer-se.
Entrai, irmão. Nesta rua da vila de Alvalade, a Ordem de Santiago da Espada garante que nenhum servo de Cristo fica ao relento. Mas recordai a nossa regra: tendes direito a pão, caldo e cama por três noites. Ao quarto dia, se as vossas pernas tiverem forças, deveis seguir viagem para dar lugar a outros que venham atrás.
Lá dentro, o aroma a lenha queimada misturava-se com o cheiro a alecrim que ardia num canto para purificar o ar. O peregrino foi conduzido a uma camarata onde se alinhavam escassas enxergas de palha, cobertas por lençóis de linho grosso. Pouco depois, o escrivão da confraria trazia-lhe uma escudela de madeira a fumegar. O caldo, engrossado com nabos, couves e uma generosa porção de banha de porco, parecia um milagre ao paladar do viandante. A acompanhar, uma fatia pesada de pão escuro de mistura e uma caneca de vinho fraco da terra.
O peregrino sorriu, sentindo o calor do caldo e a segurança das paredes fundadas pelos cavaleiros espatários. Sabia que, na manhã seguinte, as suas preces seriam ouvidas na pequena capela do Espírito Santo e que o caminho até Compostela ainda seria longo e duro. Mas naquela noite, no silêncio acolhedor da Rua Quente (rua da Cruz), ele era apenas mais uma alma salva pela caridade dos homens de Alvalade…

_Luís Pedro Ramos (30 de Agosto de 2026)

 

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