O tempo do rabisco (conto)…

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O sol de outono declinava no horizonte de Alvalade, tingindo o céu com tons de oiro e bronze antigo. A grande azáfama das colheitas chegara ao fim. Terminada a apanha do tomate, vindimadas as uvas em Conqueiros e recolhido o milho, a terra parecia suspirar — cansada, mas generosa.

Para o pequeno Tiago, porém, a verdadeira festa começava apenas agora.

Anda, rapaz, pega no balde. Chegou a hora de ir ao rabisco — chamava o avô Manuel, ajustando a boina gasta sobre as rugas da testa.

Apertando a mão do avô, Tiago sentia o coração cheio de uma humilde expectativa. Caminhavam sem pressa pelos velhos caminhos de terra batida, cruzando-se com outras pequenas silhuetas que se recortavam contra a luz morna da tarde. Famílias inteiras avançavam rumo às leiras com o respeito de quem entra num templo após a festa.

Ali, o rabisco não era furto; nunca carregara essa mácula. Era um pacto silencioso de fartura e desperdício zero. Os lavradores da vila, homens de lides maiores, deixavam deliberadamente para trás o excedente, abençoando com o seu desinteresse o sustento das gentes mais simples.

Ao chegarem ao tomatal, o rastro dos rabiscadores espalhava-se entre os «esqueletos» das plantas que abraçavam a vila. De balde na mão e pés habituados ao pó, o avô e o neto palmilhavam cada rego cavado no chão seco.

Procura debaixo das plantas murchas, Tiago. A terra gosta de pregar partidas a quem não sabe olhar — dizia Manuel com um sorriso sábio.

Tiago ajoelhou-se na terra ainda quente. Com os dedos curiosos, afastou uma rama seca e o seu rosto iluminou-se. Ali, escondido do mundo e esquecido pelo tempo, brilhava um tomate maduro, encarnado e sumarento. O menino levantou o achado como se fosse uma pepita de ouro, vendo o brilho de orgulho nos olhos do avô. Naquele gesto simples, a escassez transformava-se em abundância e as sobras da terra viravam uma lição de partilha.

Décadas mais tarde, Tiago regressou aos mesmos campos. O sol de outono continuava a tingir o céu de Alvalade, mas a paisagem ao seu redor vestia-se agora de uma geometria fria.

O som dos passos calmos no pó dera lugar ao rugido metálico de tratores e máquinas de apanha modernas. Com uma eficácia cirúrgica, as máquinas limpavam a terra até ao último rego, sem deixar espaço para o erro, para a sobra ou para a generosidade.

O pulsar comunitário apagara-se; a tradição do rabisco tornara-se uma pintura viva apenas na tela da sua saudade. Tiago baixou-se, apanhou um punhado de terra seca e deixou-a correr entre os dedos. Não havia ali nenhum tomate esquecido, mas na sua memória permanecia intacta a lembrança doce daqueles tempos bucólicos — a imagem do avô, o cheiro da terra e a certeza de que a dignidade e o amor também se colhiam nos restos dos campos.

_Luís Pedro Ramos (2 de Setembro de 2026).

 

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