Um sopro de justiça medieval (conto)…

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A poeira da estrada ainda nem assentara nas ruelas de Alvalade quando a notícia começou a correr de boca em boca. Nos campos onde a terra seca teimava em dar o sustento, as mãos calejadas pararam o trabalho. Os olhares, habitualmente pesados de resignação, ergueram-se com um misto de dúvida e esperança.

Todos sabiam o que significava o erguer das estandartes reais no horizonte. Sempre que uma comitiva se aproximava, a vila estremecia. Não por falta de lealdade ao trono, mas pelo terror do que se seguia. O direito de pousada era uma sombra constante: homens de armas e oficiais exigiam as melhores camas, o vinho reservado para todo o ano e os poucos animais que restavam nos currais. Em dias, o trabalho de meses de uma comunidade já fustigada pela miséria evaporava-se em fartos banquetes e abusos sem fim. À partida dos cavaleiros, ficavam os celeiros vazios, as casas devastadas e um povo ainda mais pobre…

Naquela manhã de Abril de 1304, porém, o mensageiro que cavalgava com as insígnias da Ordem de Santiago não trazia exigências de alojamento. Trazia uma pergaminho selado a chumbo.

Semanas antes, sensibilizado pelo desespero e pelos protestos ruidosos dos habitantes de Alvalade que já nada mais tinham para entregar, Dom João Osório, Mestre da Ordem Militar de Santiago da Espada, que detinha o senhorio da vila e comenda, resolvera intervir. Enfrentando o peso da autoridade da coroa, o Mestre levara a voz daquele povo diretamente ao rei Lavrador. Relatou as mesas fartas à custa da fome alheia, as noites de pilhagem disfarçadas de prerrogativa real e o esgotamento de uma terra que não aguentava nem mais uma visita.

Aos dez dias andados do mês de Março do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1304, no Paço Real, El-Rei Dom Dinis, por graça de Deus Rei de Portugal, escutou o pedido do Mestre dos espatários. O monarca, que tão bem conhecia o valor de cultivar e povoar o reino, entendeu que de nada servia a autoridade sobre uma terra morta pela ganância dos seus oficiais. Com uma penada firme, assinou o documento que alteraria para sempre o destino de Alvalade: abdica, a partir daquela data, de exercer o direito de pousada sobre a vila.

Quando o decreto foi lido em praça pública, um silêncio solene caiu sobre a multidão, rapidamente quebrado por um murmúrio de alívio que se transformou em aclamação. Não haveria mais celeiros saqueados ao amanhecer, nem famílias despejadas dos seus próprios tetos sob a ameaça da espada.

Pela primeira vez em gerações, o trabalho do povo de Alvalade pertenceria, por inteiro, à sua própria mesa…

_Luís Pedro Ramos

Nota do Autor: Embora a narrativa use a liberdade da ficção para dar voz e emoção às personagens, os factos descritos são estritamente reais. Em 10 de Março de 1304, a vila de Alvalade mudou genuinamente o seu destino graças a um decreto real. 

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