A poeira da estrada ainda nem assentara nas ruelas de Alvalade quando a notícia começou a correr de boca em boca. Nos campos onde a terra seca teimava em dar o sustento, as mãos calejadas pararam o trabalho. Os olhares, habitualmente pesados de resignação, ergueram-se com um misto de dúvida e esperança.
Todos sabiam o que significava o erguer das estandartes reais no horizonte. Sempre que uma comitiva se aproximava, a vila estremecia. Não por falta de lealdade ao trono, mas pelo terror do que se seguia. O direito de pousada era uma sombra constante: homens de armas e oficiais exigiam as melhores camas, o vinho reservado para todo o ano e os poucos animais que restavam nos currais. Em dias, o trabalho de meses de uma comunidade já fustigada pela miséria evaporava-se em banquetes sumptuosos e abusos sem fim. À partida dos cavaleiros, ficavam os celeiros vazios, as casas devastadas e um povo ainda mais pobre.
Naquela manhã de março de 1304, porém, o mensageiro que cavalgava com as insígnias da Ordem de Santiago não trazia exigências de alojamento. Trazia uma pergaminho selado a chumbo.
Dias antes, sensibilizado pelo desespero e pelos protestos ruidosos dos habitantes que já nada mais tinham para entregar, Dom João Osório, Mestre da Ordem de Santiago, resolvera intervir. Enfrentando o peso da autoridade da coroa, o Mestre levara a voz daquele povo diretamente ao rei Lavrador. Relatou as mesas fartas à custa da fome alheia, as noites de pilhagem disfarçadas de prerrogativa real e o esgotamento de uma terra que não aguentava nem mais uma visita.
A 10 de Março, no Paço Real, Dom Dinis escutara a oração do Mestre. O monarca, que tão bem conhecia o valor de cultivar e povoar o reino, entendeu que de nada servia a autoridade sobre uma terra morta pela ganância dos seus oficiais. Com uma penada firme, assinou o documento que alteraria para sempre o destino de Alvalade: abdica, a partir daquela data, de exercer o direito de pousada sobre a vila.
Quando o decreto foi lido em praça pública, um silêncio solene caiu sobre a multidão, rapidamente quebrado por um murmúrio de alívio que se transformou em aclamação. Não haveria mais celeiros saqueados ao amanhecer, nem famílias despejadas dos seus próprios teto sob a ameaça da espada.
Pela primeira vez em gerações, o trabalho do povo de Alvalade pertenceria, por inteiro, à sua própria mesa…
_Luís Pedro Ramos
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