Início » Memórias sociais » Hortas, uma tradição secular…
Sem comentários

Quem percorre a cintura de Alvalade, depara-se com um cordão verdejante que teima em abrandar o tempo. São as hortas dos alvaladenses. Pequenos pedaços de chão, vigiados por canaviais, árvores de fruto e velhas oliveiras, que guardam uma tradição e herança com muitos séculos de existência, transmitida de pais para filhos num compasso que a modernidade ainda não conseguiu apagar. Em tempos idos, que os cabelos brancos da terra ainda recordam bem, estas hortas eram parte importante do sustento da casa. Ir para a horta cavar a terra, desviar a água à enxada e sachar as sementeiras não era um passatempo… Era a força da necessidade. Tratava-se de amparar o orçamento da família, de poupar alguns escudos e garantir que a panela de ferro fervia em lume de chão com o que vinha da horta ou do quintal. Uma autêntica e generosa despensa viva, onde a janta se colhia diretamente do torrão: a batata, as cenouras e as couves no inverno, o feijão-verde, o tomate e a cebola no verão.
Hoje em dia, a vida corre de outra feição, mas os homens e algumas mulheres de Alvalade continuam a abrir os mesmos portões de rede ao erguer do dia ou ao cair da tarde. O que era uma obrigação dura transformou-se num refúgio para a alma. Estas hortas são agora o poiso ideal para ocupar os tempos mortos de forma sã. Ali, o rebanho de preocupações do dia-a-dia desaparece. O tempo passa a ser medido pelo vagar com que o tomate amadurece ou pelo viço com que a couve cresce para a panela.
À mesa de muitos alvaladenses, o maior luxo já não se compra na mercearia ou nos hipermercados, nem vem embrulhado em plásticos. O verdadeiro regalo é sentar a família à mesa e comer uma sopa de legumes, uma salada de tomate ou de alface que sabem, de facto, a terra. São hortícolas criados sem pressas e inteiramente despidos de tratamentos químicos. No fundo, sachar a horta transformou-se num desvelo: uma forma de cuidar da saúde, de colher o sustento da terra para o prato e de manter viva a identidade desta vila alentejana que, por vezes, teima em não esquecer as suas raízes…
_Luís Pedro Ramos, 23 de Julho de 2026.
Comentários recentes