
O meu tempo de garoto e adolescente teceu-se de silêncio, povoado por gente simples e almas humildes que a nossa vila aninhou, até que o sopro outonal as escondeu ou levou…
Na quietude desses dias, temíamos a passagem do enigmático e velho Jordão, um maltês simplório e sempre faminto que surgia como uma sombra nos caminhos ao redor da vila. Logo depois, o medo desfazia-se em riso quando as ruas recebiam as parolices e o eco do Ré-Réu, entre as brincadeiras e as gargalhadas de todos.
Caminhar pelas ruas de Alvalade era cruzar um palco de contrastes vivos. De um lado, a figura abastada e rígida, mas profundamente solidária, de Margarida Guerreiro; do outro, o popular Zé Grilo, que afogava as suas mágoas terrenas na penumbra das tabernas. Cruzavam-se no meu olhar a bonomia do Zé Paquete e o aceno afável do Joaquim Cicloino, ao passarem pelo carismático Zé das Neves — o eterno “Porra Vizinha” — e pelo carteiro Adalcino, popular mensageiro que trazia a vida de fora nas cartas que fazia deslizar, como segredos, por baixo das portas.
Do lavrador Ilídio e da sua família guardo a memória da sua bondade e o sabor do azeite que tantas vezes ofereceram aos meus avós paternos. Sob o mesmo sol dessas tardes de outrora, a Dona Inês, minha Avó, ensinava-nos as primeiras letras e o cantar ritmado das tabuadas…
O quotidiano da nossa terra tecia-se devagar, ao ritmo pausado das estações e do rip-rip compassado das tesouras nas barbearias do Delcas, do Tonico, do Ramos e do Joaquim — um som que rivalizava com o burburinho caloroso e acolhedor das tabernas do Vitorino e do Atalaia. Nas manhãs calmas e inundadas de luz, as cabeleireiras Belita e Deolinda davam cor e vaidade à vila.
Enquanto isso, o Chico, o Zé Duque, o Manuel Pereira e o Raul asseguravam o serviço ao balcão nos seus cafés, verdadeiros lugares de culto onde o tempo parava, ao mesmo tempo que a D. Júlia preparava os almoços e petiscos que tanta fama lhe granjearam.
Nos seus cantos tranquilos, a cheirar a pez e a cabedal, os mestres sapateiros Joaquim Sabino e Chico Algarvio moldavam o couro e as meias-solas com uma sabedoria antiga. Consertavam sapatos e botas cardadas com a mestria paciente de quem trabalha em perfeita sintonia com a tradição. E quando a noite caía e o calor abrandava, a esplanada do cinema transformava-se: o Sambrana parecia voar na baliza do ringue improvisado, nas grandes noites de futebol de salão.
De dia, o Zeca e o Armandinho deambulavam pelas ruas protegidos pelo manto de carinho e compaixão da vila inteira. Guardo também na memória o contraste do Sr. José Carraça, a quem chamavam o ‘Tigre da Malásia’. Aquela figura austera, encorpada e com o cognome de um felino temido escondia uma bondade imensa e um amor sagrado à família e aos amigos.
À época, a nossa vila vivia também ao ritmo compassado das mercearias. O Alfredo Maximino, o Joaquim Henriques, o Manuel Pereira, o Zé Inácio, o Celestino e o Ti Henriquinhos guardavam, em prateleiras e caixas de madeira antiga, ou em sacas de serapilheira, a própria alma da terra: os cheiros intensos das especiarias e do café, do bacalhau, do arroz, do atum avulso, do feijão, do açúcar amarelo, do sabão azul-e-branco e do papel pardo que embrulhava estas e tantas outras compras a granel. À entrada de cada porta, o ranger familiar do soalho calcado anunciava a chegada de uma vizinha, que vinha tanto pelos mantimentos como pelo aconchego de uma boa conversa.
Noutras ruas, os nossos olhos demoravam-se nas bancas das lojas do Zé da Abela e da Maria Gonçalves, que exibiam o viço e a frescura das suas frutas e hortícolas, enquanto o ar era inundado diariamente pelo perfume do pão quente e dos bolos da Padaria Rainha…
As papelarias Nobre e Bica & Bica eram os nossos pequenos refúgios de infância, lugares onde a imaginação ganhava asas entre cadernos, brinquedos, eletrodomésticos e muitas surpresas. Já o brio e o aprumo dos dias pacatos eram trazidos pelas lojas de roupa do Sr. Virgílio e do Sr. Hélder, que vestiam os homens e mulheres alvaladenses com as últimas modas. Na sua drogaria, o afável Manuel Vasco continuava a atender-nos com a cordialidade de sempre.
Por sua vez, o Sr. Seabra dividia-se entre o tique-taque lento dos relógios a quem dava nova vida e o brilho mudo do ouro que esperava comprador, na antiga ourivesaria que guardava o tempo num fio de silêncio.
No posto médico, o Dr. Fernandes e a Enfermeira Maria da Paz velavam pelo nosso bem-estar com uma dedicação quase familiar, partilhada com os consultórios particulares do Dr. Acácio e da Dra. Graziela. A memória da antiga farmácia Lança ainda floresce na minha mente como um remanso de afetos, onde o Sr. Lança e a Dra. Agostinha — rostos históricos que marcaram gerações — nos recebiam sempre com simpatia e disponibilidade para aliviar as nossas dores e entregar os remédios e bálsamos que devolviam o vigor aos nossos dias. Lembro-me também de ver, com orgulho, o saudoso Morais conduzir a primeira ambulância que Alvalade conheceu…
A vida da vila corria igualmente nos afetos do desporto e do espírito. O carismático Francisco Guerreiro orientava a equipa sénior do F.C. Alvaladense, mas era o Copi quem dava alma ao campo, marcando as linhas a cal, cuidando dos equipamentos e assumindo o papel de massagista e “curandeiro” improvisado nos jogos domingueiros.
Na igreja matriz, o Padre Martins Salgueiro assegurava os ritos antigos e pastoreava os fiéis com voz serena, secundado pela D. Maria Sobral, que ensaiava o coro com paciência, e pelo Alexandre, que guiava os nossos escuteiros pelos caminhos do campo. Ao fim do dia, no bar da Casa do Povo, encontrávamos o Manuel Pacheco, homem de uma paciência infinita que nos acolhia a todos com o calor de um lar.
Nas tardes quentes de verão, as ribeiras e o canal transformavam-se nas nossas praias de eleição. Ali, com outros rapazes da terra, vivemos a infância sem reservas, num território que conhecíamos como a palma da nossa mão.
Nas campanhas de verão na ECA, os três turnos diários eram magistralmente coordenados pelo Sr. Artur, pelo Sr. Rosinha e pelo Sr. Armando, que asseguravam o bom e normal funcionamento da fábrica.
Entre o final da juventude e a alvorada da idade adulta, o meu percurso cruzou-se com o F.C. Alvaladense, nos juniores e nos séniores. No ringue do clube, disputei também inesquecíveis torneios de verão de futebol de salão, partilhando a intensidade do jogo com companheiros e amigos de uma vida inteira.
Foram estas algumas das árvores fortes da minha infância, adolescência e início da idade adulta, homens e mulheres respeitados e acarinhados pelo chão que pisavam. Hoje, o sol ainda nasce no mesmo horizonte, mas a vila mudou. Deles resta apenas o sopro da memória, como folhas caídas que o tempo, na sua marcha invisível e implacável, retirou da nossa vista…
Comentários recentes