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O silêncio que hoje habita o primeiro terço da rua da Cruz é um eco mudo de outros tempos, uma ausência pesada que esmaga o presente. Durante décadas, este chão foi o coração quente da vila. Aqui existiu uma casa de pão, bolos e de afectos, onde a farinha e outros ingredientes se transformavam em arte… Primeiro, foi a “Padaria Margarida Guerreiro”, mais tarde rebatizada como “Padaria Rainha” e depois “Panbolo”. Os nomes mudaram, mas a alma do local permaneceu intacta. A sua boa reputação era vasta e ultrapassava as fronteiras de Alvalade. Carrinhas carregadas de pão quente e estaladiço e bolos de aprimorada confecção partiam diariamente da rua da Cruz para alimentar outras gentes, fora de portas, levando um pedaço de Alvalade a outras paragens. No Natal, a confecção do bolo-rei na Padaria Raínha não tinha mãos a medir. O forno trabalhava dia e noite, e um aroma denso, doce e quente perfumava quase toda a rua, como um abraço invisível aos clientes, moradores e forasteiros.
Mesmo ali ao lado, em tempos mais recuados e dividindo o edifício e a sua história, erguia-se a “Pensão Guerreiro”. Tinha boa e fiel freguesia e a sua sala de refeições, sempre concorrida, assistia ao tilintar dos talheres e ao murmúrio das conversas cúmplices. Gente conhecida, trabalhadores temporários na terra, mas também rostos sem nome, viajantes sem rumo e outras almas dividiam o espaço e pernoitaram ou viveram algum tempo naqueles quartos discretos situados no primeiro andar. Onde estarão agora os seus risos, as suas lágrimas e os seus segredos confessados à luz dos candeeiros do tecto?
Onde outrora a vida pulsava no calor de uma padaria e no acolhimento de uma pensão, tudo ruiu sem ruído… Resta a melancolia desses tempos e a certeza de que a modernidade devorou o que a tradição levou uma vida a erguer. Onde houve tanta vida, risos partilhados e janelas abertas para a rua, há agora apenas fumo do passado, um rasto invisível de pão acabado de cozer que o vento teima em soprar e a saudade incurável de um tempo que não volta mais…
Obs. A fotografia é meramente ilustrativa uma vez que o edifício já foi demolido.
_Luís Pedro Ramos
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