— Esfrega mais esse banco, rapaz! — ordenou ao jovem fâmulo, que limpava a bacia de latão com cinza e vinagre. — Se o Chanceler Barradas encontra uma beliscadura de pulga ou um pingo de sebo no chão, bem podemos rogar a Santiago que nos valha no Castelo de Palmela.
O tropel dos cavalos e o som metálico das esporas ecoaram finalmente no piso áspero da rua. O povo de Alvalade, pouco mais de cem vizinhos assustados, espreitava pelas frestas das portas. À frente do séquito, montando um imponente corcel negro, vinha Dom Jorge de Lencastre. O poderoso Grão-Mestre da Ordem de Santiago da Espada não trazia apenas a autoridade da cruz heráldica pontiaguda bordada no peito; trazia o olhar severo de quem se batia nas cortes contra o próprio rei Dom Manuel I.
Cumprindo as isenções da vila e a velha mercê de Dom Dinis que proibia a pousada forçada nas casas dos moradores, a comitiva não se espalhou pelo casario. Os homens de armas e os criados de menor patente começaram a erguer tendas de campanha e pavilhões militares junto às margens frias do rio Sado e nos limites dos celeiros comuns. O Grão-Mestre e os seus oficiais de topo — o Prior-mor de Palmela, Dom João de Braga, e o chanceler Francisco Barradas — recolheram estritamente aos aposentos reservados das Casas da Comenda, propriedade da própria Ordem, na rua Quente.
Foi a pé, acompanhado pela escolta, que Dom Jorge cruzou o limiar do albergue na Rua Quente. O silêncio na sala era absoluto, quebrado apenas pelo estalar da lenha no velho chopão onde cozia um humilde caldo de nabos. Dom Jorge não proferiu palavra de saudação. Com o chicote de montaria na mão, avançou direito às camas. Puxou o linho com a ponta da bota, inspecionando a palha.
— Duas camas de enxoval para os pobres errantes, frei Estêvão? — a voz de Dom Jorge ecoou, gélida, nas paredes de taipa. — Esta é uma das comendas antigas da Ordem. Onde estão os panos e as coberturas de lã que o comendador Dom João de Sousa devia prover com as rendas do trigo?
Estêvão da Frota engoliu em seco, curvando a cabeça.
— Meu Senhor… o comendador gere as terras a partir de Ferreira. Os dinheiros tardam a chegar e as maleitas do inverno passado consumiram o azeite das lâmpadas e o grão dos necessitados. Fizemos o que a Regra manda: nenhum caminhante dormiu ao relento e a todos se deu o pão escuro de mistura e a escudela de caldo.
O Chanceler Francisco Barradas aproximou-se do Grão-Mestre, segurando um livro de contas encadernado em pele de carneiro.
— Os registos da confraria confirmam a esmola, Vossa Excelência. Mas há três oliveiras no termo da vila, doadas em testamento ao Espírito Santo, cujos frutos foram colhidos pelos oficiais do concelho sem autorização deste Mestrado.
Dom Jorge de Lencastre voltou-se para a porta, onde o Procurador da Vila, Andrade Rodrigues, assistia a tudo com o chapéu na mão, amparado pelo direito e pela isenção de colheita que protegia os bens da sua gente. O Grão-Mestre caminhou até ele, a armadura rangendo a cada passo.
— Vós, os homens bons de Alvalade, andais muito pressurosos com os escrivães do Rei e as promessas de novos forais para rasgar os velhos costumes do Campo de Ourique — disse Dom Jorge, fixando os olhos no Procurador. — Mas lembrai-vos que a justiça nesta comarca assenta na espada de Santiago. Se até ao dia de amanhã o azeite dessas oliveiras não estiver no lagar do hospital, e se o vosso comendador ausente não mandar reparar o teto desta albergaria com o ouro dos dízimos, mandarei confiscar o trigo dos celeiros da própria Ordem. A caridade da Espada não se negoceia nas secretarias de Santarém!!!
Pero Coelho passava tudo para o papel com uma rapidez vertiginosa. O Mestre da Ordem deu as costas e saiu em direção à Igreja de Santa Maria (actual Igreja Matriz), deixando atrás de si um rasto de autoridade que Alvalade não esqueceria tão cedo.
À noite, após o séquito recolher aos aposentos da comenda, o clérigo Estêvão voltou a sentar-se à porta do hospital na Rua Quente. O silêncio regressara, mas as pedras pareciam ainda tremer com o peso do poder que as pisara. Olhou para as fogueiras da escolta que brilhavam ao longe, junto ao Sado, e murmurou uma prece, dividida entre o alívio de ver a sua vila protegida pelas leis da Coroa e a certeza de que Alvalade estava no centro de uma tempestade maior do que o seu próprio horizonte.
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