O sol de Agosto caía como um forno sobre os telhados de Alvalade. Os quarenta graus à sombra fustigavam a terra, e nem a brisa da várzea arriscava soprar. Debaixo da latada, o velho Ti Bento repousava numa cadeira pintada de almagre, com as rosetas brancas desbotadas pelo tempo e o assento de bunho a acomodar-lhe os anos. Na mão, segurava o cocharro de cortiça, matando a sede com a água fresca tirada da quarta de barro.
— Tem avondo, Bento, não bebas mais de rajada que te faz mal — avisou a esposa, Dona Maria, ajustando o xale enquanto preparava o almoço. O cheiro intenso do alho e dos coentros já tresandava pela casa, prenúncio de uma açorda bem regada, com o pão de véspera, acompanhada por aquele queijo pequeno de cabra, duro e branco como calcário, que só a cutelo se conseguia partir.
Ao longe, o estalar das rodas de madeira anunciava a chegada do carro toldado em telha. Vinha carregado até ao topo, uma carrada monumental do louro e pesado trigo das ceifas, o ouro de Alvalade.
Bento olhou para o casaco pendurado no cabide. Lembrou-se de como, meses antes, em Janeiro, o frio de três graus negativos lhe fuzilava as orelhas e o obrigava a meter-se na cama com a “copa” toda em cima. Agora, o calor sufocava, mas ele nem ousava tirar a camisa, sabendo bem que as moscas e o seu ferrão albardeiro não dão tréguas a quem se destapa.
A noite caiu devagar, trazendo o lusco-fusco e o alívio da canícula. Da rua subiu um som veludoso: não eram as vozes femininas que em Março cantavam no regresso das mondas, mas sim o coral masculino da vila. Homens de pelico, safões e capote ao ombro, de cajado na mão, entoavam acordes estranhos e profundos sob a luz da lua.
— Dizem nos papéis velhos que isto é Estremadura, Bento — comentou Maria, pondo à mesa a tijela da açorda e o salgado queijo de cabra.
O velho sorriu, balançando a cabeça com a sabedoria de quem conhece a terra que pisa.
— Deixá-los dizer, Maria. Enquanto o nosso cantar for assim harmonioso, enquanto rezarmos para a espinhela caída e levantarmos mastros coroados de freixo ao Santo António, Alvalade será sempre o coração do Campo de Ourique. Os papéis podem dizer o que quiserem, mas a alma da gente não engana…
_Luís Pedro Ramos
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