A última jornada de um alvaladense em terras de Santarém (conto)…

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A poeira da estrada que vinha do Sul parecia nunca mais assentar. Manuel da Costa ajustou o capote de lã pesada sobre os ombros robustos, sentindo no rosto redondo o ar húmido que subia das margens do Tejo. Tinha o corpo grosso, talhado pelo trabalho e pelas viagens, e o cabelo preto e escorrido, colado à testa pelo suor da jornada.

Nascido e criado nas terras solarengas da Vila de Alvalade, Manuel trazia no peito a nostalgia do Alentejo e no bolso um pequeno maço de cartas — a sua ligação ao mundo, os papéis que justificavam a caminhada por terras estranhas. Naquela primavera de 1730, o destino levava-o às imediações do Casal do Campo, junto a Vale de Figueira (concelho de Santarém). O dia 25 de abril despontava calmo, mas a sina de Manuel já estava selada à curva do caminho…

Não houve espaço para honra nem para aviso. Escondidos na sombra da vegetação, os salteadores caíram-lhe em cima, à traição. Mataram-no pelo roubo, despojando-o dos parcos haveres e deixando o seu corpo sem vida estendido na terra fria.

Quando a notícia correu, o sobressalto assentou sobre a comunidade de Vale de Figueira. O Juiz de Fora da Vila de Santarém foi chamado ao local para tomar conhecimento do crime, enquanto o Padre Francisco Lopes de Carvalho observava com comoção aquele homem sem nome imediato, anotando com rigor no Livro de Óbitos a descrição do seu capote, da sua vestia preta e da fisionomia que a morte gelara. Foram as cartas guardadas no seu bolso que, finalmente, romperam o anonimato: aquele viandante tinha nome e chamava-se Manuel da Costa e era natural da vila de Alvalade.

Sepultaram-no no adro da Igreja de São Domingos (Vale de Figueira, Santarém), longe da sua vila natal, mas a brutalidade da tragédia entalhou-se no coração do povo local. Não por Manuel ser um fidalgo ou homem de grande linhagem, mas porque a injustiça da sua morte à traição impressionou a gente daquela terra. Alguém — talvez tocado por uma piedade profunda ou pela revolta do ato — mandou cravar numa pedra de alminha a memória daquele dia terrível, fincando-a no chão ao lado de uma cruz de madeira:

«Aqui mataram e roubaram a Manuel da Costa, natural da Vila de Alvalade, aleivosamente e por tudo reconhecido em 25 de abril de 1730. Peço pelo amor de Deus um Pai Nosso e uma Ave Maria por sua alma.»

As décadas e os séculos passaram. A cruz de madeira apodreceu e desfez-se no tempo, mas a pedra permaneceu no lugar a que chamaram Cruz da Légua. São incontáveis os transeuntes que cruzaram aquele caminho sem conhecer a história do homem de Alvalade ali tombado…

Contudo, a memória é teimosa. Quase 300 anos depois, pelas mãos e paciência de um reconhecido investigador local que recusou deixar o mistério esquecido, a poeira dos arquivos finalmente limpou-se. Manuel da Costa voltou a ter rosto, origem e voz, unindo para sempre a sua Alvalade natal à terra de Vale de Figueira, onde a sua alma encontrou descanso e, finalmente, a sua história voltou a ser contada.

_ Luís Pedro Ramos

Nota de autor: Este conto inspira-se na história real de um infortunado alvaladense, arrancado à vida longe da sua terra natal num ato de cobarde violência. Durante quase três séculos, a sua memória permaneceu adormecida, guardada apenas por uma pedra silenciosa à beira de um caminho no ribatejo. Foi a dedicação e o rigor do zeloso investigador José Gaspar, natural de Vale de Figueira (Santarém), que permitiram desenterrar este mistério e trazer de volta à luz do dia a identidade e o trágico destino deste nosso desconhecido conterrâneo. A ele deixamos o nosso profundo e sentido agradecimento por devolver a Manuel da Costa o seu nome, o seu contexto e o devido lugar na nossa história.

Obs: A fotografia, da autoria de José Gaspar, mostra a pedra de pé no local do homicídio de Manuel da Costa, ao lado do caminho.

 

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